Apostas online afetam consumo e produtividade em bares e restaurantes
Levantamentos revelam queda de frequência de clientes e impactos emocionais em trabalhadores do setor alimentício
DA REDAÇÃO – SÃO PAULO
As apostas esportivas online têm causado efeitos colaterais cada vez mais visíveis no setor de alimentação fora do lar. Um dos principais impactos é a redução no consumo presencial em bares e restaurantes: segundo a ABMES, o número de apostadores que já deixaram de frequentar esses estabelecimentos aumentou de 24,8% para 28,5% entre 2024 e 2025.
O avanço das chamadas “bets” vem desde o início da regulamentação das casas de apostas no Brasil, em janeiro deste ano. Em maio, essas plataformas já ocupavam a segunda posição em número de acessos na internet, atrás apenas do Google, segundo a SimilarWeb — o que mostra o quanto elas passaram a fazer parte do cotidiano digital dos brasileiros.
Mas não são apenas os clientes que têm mudado de comportamento. Proprietários de bares e restaurantes relatam queda de produtividade entre os funcionários que apostam regularmente. O impacto vai além da distração: perdas financeiras e frustrações emocionais estão comprometendo o desempenho profissional de jovens trabalhadores, faixa que representa a maioria da força de trabalho no setor, segundo a PNAD.
EFEITOS NO MERCADO DE TRABALHO
A popularização das apostas também afeta o cenário da empregabilidade. Pesquisa da Abrasel de março deste ano aponta que 90% dos empresários têm dificuldades para contratar, sendo a falta de qualificação (64%) e o desinteresse pelas vagas (61%) os principais motivos. A ilusão de ganho fácil, promovida por influenciadores e campanhas publicitárias, afasta parte dos jovens da busca por estabilidade e capacitação profissional.
“O funcionário perdeu todo o salário apostando online e começou a furtar alimentos do nosso estoque. Descobrimos pelas câmeras e infelizmente tivemos que demiti-lo”, contou Roberto Franco*, dono de um restaurante em Fortaleza (CE).
Segundo dados da Unifesp, 10,9 milhões de brasileiros já fazem uso problemático de apostas. O vício em jogos, conhecido como ludopatia, é reconhecido pela OMS como um transtorno de saúde mental.
“As apostas podem ser um fator de adoecimento mental mais forte do que se imagina. Quem está mentalmente exausto pelo jogo perde a capacidade de atenção e produtividade no trabalho”, explica o psicólogo Paulo Jelihovschi, da Abrasel.
O fenômeno representa um desafio urgente que vai além da economia: é também um problema de saúde pública e de bem-estar no ambiente de trabalho. Especialistas alertam para a necessidade de ações educativas, regulação mais rígida e conscientização sobre os riscos do uso descontrolado das plataformas de apostas.
*Nome fictício utilizado para preservar o entrevistado.
