Sexta-feira, 2 de outubro de 2026
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A festa da democracia?

Vinheta escriturices

Admito, com certo pudor, que nunca fui muito fã de temas políticos, mas hoje compreendo não apenas as minhas razões, como as de tantas outras pessoas que me relatam o mesmo sentimento. Política é assunto sério; ao menos deveria ser.  Há nela questões muito complexas, o que acredito não ser apenas demérito brasileiro. Motivos não faltam, apesar da importância das decisões políticas para a vida de todos.

Muitas pessoas, em verdade, têm verdadeira aversão à política e isso decorre de fatores psicológicos, institucionais e sociais. A sensação de que o voto, individualmente considerado, de nada ou pouco vale, traz uma sensação de descolamento, como se a classe política pertencesse a outro universo, a uma bolha inatingível, da qual pouco ou nada se entende do que lá é tratado.

Os escândalos recorrentes envolvendo toda ordem de atrocidades, sobretudo a corrupção, os privilégios, o nepotismo e uma gama de promessas que quase nunca são honradas, afastam a temática daquelas pessoas que não se alinham à ausência de moralidade ou que já deixaram de acreditar em mudanças estruturais.

A polarização política também é algo que irrita, que acirra ânimos, desfaz amizades, afrouxa ou rompe vínculos familiares. Esse, particularmente, é um dos motivos que ordinariamente me afastavam do assunto. É sempre triste quando as pessoas deixam que suas convicções políticas se transformem em discurso de ódio e de desrespeito, quando democracia vira sinônimo de vencer.

Outro ponto de desinteresse para grande parcela da população envolve a complexidade e o uso de jargões inacessíveis à grande maioria da população. Enquanto o tema for tratado de forma propositalmente hermética, sem que as pessoas entendam o mínimo necessário sobre orçamento público, sobre moralidade, sobre com o que cada cargo político pode se comprometer, o brasileiro permanecerá sendo um cidadão de papel.

Assim, eu mesma, diante de um cenário que parece nunca mudar, em certa época da minha vida, hesitei muito em me aprofundar no cenário político, em saber mais sobre o que faziam ou deixavam de fazer aqueles que tinham a máquina, o país nas mãos. Entendi, entretanto, que o efeito avestruz, o fingir que nada nos diz respeito, não favorece o país, a sociedade, o futuro de todos nós.

Falta, é fato, o investimento em educação cívica e aqui não estou me referindo a doutrinamentos, mas a esclarecimento. Democracia é palavra difícil de ingerir, embora viva por aí na boca de quase todos os políticos, estejam de que lado estiverem. Ausência de conhecimento resulta em poder para quem o detém. Povos ignorantes sempre foram mais facilmente dominados, historicamente falando. Notícias enganosas -  as chamadas fake news - encontram terreno fértil em mentes que ignoram os fatos reais, inclusive.

Acredito, em um esforço particular de respeito à opinião e crença alheia, que mais importante do que em quem se vota, é por que se vota. Que possamos exercer nosso voto, nossa escolha, com consciência, com a seriedade que o momento requer. Que não sejamos meros repetidores do que sequer entendemos, mas propagadores de fatos reais, estejam eles com quem estiverem. Além disso, que saibamos respeitar o resultado que vier, como exercício da democracia.

Gostar de política não é a questão. Ponto de honra é não fingirmos que isso tudo não nos diz respeito.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária, continua não sendo fã de política, mas não se furta mais de compreendê-la. Segue tentando, ao menos – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

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