Depois de 245 dias com restrição ao banho, principalmente devido à proliferação de algas, a Praia Municipal de Sabino, no Noroeste Paulista, voltou a ser considerada própria para os banhistas. A mudança ocorreu dois meses após a instalação de 14 boias inteligentes que utilizam ondas de ultrassom para combater a chamada “nata verde” em um braço do Rio Tietê.
Os primeiros resultados do projeto-piloto da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) apontam queda de 91,5% na concentração de microcistina, toxina produzida por determinadas algas e que, em níveis elevados, impede o uso recreativo da água.
A concentração caiu de 23 microgramas por litro, em 17 de agosto, para 1,95 micrograma por litro, em 15 de setembro.
A praia foi liberada após duas análises consecutivas apresentarem índices inferiores ao limite de 5 microgramas por litro: 2,8 microgramas em 8 de setembro e 1,95 no dia 15. A classificação é válida até o dia 25, quando as condições serão novamente atualizadas.
Apenas terceira liberação em 2026
Apesar da melhora, o histórico deste ano mostra a dimensão do problema enfrentado em Sabino. Esta é somente a terceira vez em 2026 que a praia é considerada própria para banho. As outras duas ocorreram nos dias 9 e 16 de janeiro.
Nas demais semanas, as restrições foram provocadas principalmente pelas algas. Em alguns períodos, as análises também identificaram E. coli, bactéria que indica contaminação fecal e pode estar relacionada ao lançamento de esgoto sem tratamento ou a dejetos de animais levados para o rio pelas chuvas.
Ultrassom combate a “nata verde”
As boias começaram a funcionar em 21 de julho, no Córrego do Esgotão, braço do Rio Tietê localizado no reservatório de Promissão e que influencia diretamente a qualidade da água da Praia Municipal de Sabino.
O princípio da tecnologia é impedir que as algas permaneçam próximas à superfície, onde recebem a luz necessária para realizar a fotossíntese. As ondas de ultrassom dificultam essa permanência e, com menos luz, as algas perdem capacidade de crescer e se reproduzir.
Segundo a Cetesb, o sistema não utiliza produtos químicos e atua sem causar danos aos peixes, plantas e demais organismos aquáticos. Pasted markdown
Investimento chega a R$ 9 milhões
O projeto recebeu investimento de aproximadamente R$ 9 milhões e cobre uma área de 960 mil metros quadrados, equivalente a mais de 130 campos de futebol.
São cerca de 7 milhões de metros cúbicos de água abrangidos pela tecnologia, volume que, segundo a Cetesb, seria suficiente para encher 2,8 mil piscinas olímpicas.
As 14 boias funcionam de maneira interligada e possuem alcance aproximado de 500 metros de diâmetro cada. Quatro delas também atuam como estações de monitoramento.
Sensores acompanham durante 24 horas parâmetros como oxigênio dissolvido, pH, turbidez, temperatura, clorofila e ficocianina. Uma estação meteorológica também monitora chuva, vento e temperatura. A estrutura utiliza energia solar e baterias de lítio.
Desenvolvida na Holanda, a tecnologia já é utilizada em cerca de 60 países.
Resultado veio antes do esperado
A previsão inicial era de que os primeiros efeitos surgissem depois de 90 dias de funcionamento. Em Sabino, porém, a redução da microcistina foi observada já no segundo mês.
O resultado, entretanto, ainda é considerado parte de um projeto experimental. As boias serão avaliadas durante um ano, período em que a Cetesb acompanhará o desempenho do sistema durante chuvas, estiagem e diferentes temperaturas.
O diretor-presidente da Cetesb, Thomaz Toledo, classificou o resultado como promissor e afirmou que, caso a efetividade seja confirmada ao longo do projeto, a experiência de Sabino poderá orientar a utilização da tecnologia em outros municípios banhados pelo Tietê que também sofrem com a proliferação de algas. nPasted markdowSatélites e inteligência artificial vigiam o Tietê
Além das boias, a Cetesb passou a utilizar, desde junho, imagens de satélite e inteligência artificial para acompanhar aproximadamente mil quilômetros do Rio Tietê, entre Suzano e Itapura, além do Rio Pinheiros e dos principais reservatórios da bacia. Pasted markdown
As imagens são atualizadas semanalmente e permitem localizar algas, matéria orgânica e outras alterações na superfície. Quando uma mudança é detectada, o sistema gera alertas para orientar coletas, vistorias e ações de fiscalização.
Seis de oito praias estão próprias
A Cetesb monitora semanalmente oito praias de água doce no Médio e Baixo Tietê.
Na classificação válida até o dia 25, seis estavam próprias para banho: Sabino, Anhembi, Rio Bonito, em Botucatu, Arealva, Mendonça e Ubarana.
Iacanga e Sales permaneciam impróprias.
Como as condições podem mudar, a recomendação é verificar a classificação mais recente antes de entrar na água. A Cetesb também orienta evitar o banho durante chuvas fortes e nas 24 horas seguintes, mesmo em locais classificados como próprios, devido ao risco de resíduos, esgoto e dejetos serem carregados para os rios.
Estado aponta redução da carga orgânica
O projeto de Sabino integra o Integra Tietê, programa estadual lançado em 2023 e que reúne ações de saneamento, desassoreamento, fiscalização, monitoramento e recuperação ambiental.
Segundo dados apresentados pela Cetesb, entre 2024 e 2026, a carga orgânica transportada pelo Tietê na saída da Região Metropolitana de São Paulo caiu de 218 para 154 toneladas por dia, redução de 29,4%. No Médio Tietê, a concentração média de Carbono Orgânico Total caiu aproximadamente 15% em um trecho de cerca de 300 quilômetros entre Santana de Parnaíba e a entrada do reservatório de Barra Bonita.
Desde o lançamento do Integra Tietê, o Governo do Estado informa que mais de R$ 25 bilhões foram destinados à recuperação do rio e de seus afluentes.
Em Sabino, a volta dos banhistas depois de meses de restrições representa o primeiro efeito visível da experiência com ultrassom. A confirmação de que a tecnologia consegue manter os resultados, porém, dependerá do acompanhamento ao longo dos próximos meses.






