Quarta-feira, 23 de setembro de 2026
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Com promessas de sucessivos governos, histórico Rio Tietê ainda pede socorro

No Dia do Rio Tietê, celebrado nesta terça-feira (22), histórico de investimentos e programas de recuperação contrasta com contaminação, lixo, espuma e proliferação de algas e plantas aquáticas; problemas atingem comunidades que dependem diretamente de suas águas

Rio Tietê Itapura

Em agosto de 2023, a praia de Itapura já sofria com a vegetação no Rio Tietê. Crédito: Antônio Crispim

O calendário determina uma homenagem. A realidade cobra uma reflexão.

Nesta terça-feira, 22 de setembro, comemora-se o Dia do Rio Tietê. A data foi instituída pela Lei Estadual 7.815, de 23 de abril de 1992. Mais de três décadas depois, porém, um dos maiores símbolos naturais e históricos de São Paulo ainda convive com problemas ambientais que atravessaram sucessivos governos, consumiram investimentos bilionários e continuam produzindo consequências para quem vive às suas margens.

A própria data comemorativa nasceu no início da década de 1990, período em que a recuperação do Tietê já ocupava espaço central no debate ambiental paulista. A lei sancionada pelo então governador Luiz Antônio Fleury Filho estabeleceu oficialmente 22 de setembro como o Dia do Rio Tietê.

De lá para cá, programas mudaram de nome, novas metas foram anunciadas, sistemas de tratamento de esgoto avançaram e bilhões foram investidos. O Tietê, no entanto, continua dando sinais de que a recuperação está longe de terminar.

Um levantamento divulgado neste ano pela Fundação SOS Mata Atlântica, realizado com universidades e centros de pesquisa, concluiu que não havia nenhum trecho analisado do rio plenamente livre de contaminação. Em mais de 1,1 mil quilômetros, da nascente em Salesópolis à foz no Rio Paraná, em Itapura, foram encontrados microplásticos em todos os 14 pontos avaliados, além de 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre fármacos e drogas ilícitas.

É um retrato que transforma o Dia do Rio Tietê menos em comemoração e mais em alerta.

Um rio que ajudou a construir São Paulo

A importância do Tietê ultrapassa a questão ambiental.

Suas águas fizeram parte do processo histórico de ocupação do território paulista e das expedições que avançaram para o interior. Durante a Guerra do Paraguai, a região de Itapura e do antigo Salto do Avanhandava também teve importância estratégica.

Mais tarde, o rio ganhou papel decisivo na geração de energia elétrica. A construção de barragens e reservatórios modificou sua paisagem e ampliou as possibilidades de navegação, abrindo caminho para a consolidação da Hidrovia Tietê-Paraná.

Cidades nasceram, cresceram ou construíram parte de sua economia e identidade às margens do rio. Barra Bonita transformou o Tietê em atração turística. Em diferentes regiões, pescadores ainda dependem de suas águas para obter renda.

Na região de Araçatuba, o rio também tem importância direta para o abastecimento de água.

O Tietê, portanto, não é apenas patrimônio ambiental. É fonte de água, energia, transporte, turismo, pesca, memória e desenvolvimento econômico.

E justamente por tudo isso sua degradação cobra um preço ainda maior.

Décadas de promessas

A preocupação com a deterioração do rio não começou agora.

Na década de 1980, um desastre ambiental na região de Barra Bonita, com grande mortandade de peixes, ajudou a mobilizar ambientalistas. Entre eles estava Hélio Palmesan, que iniciou um movimento em defesa da recuperação do Tietê e posteriormente consolidou a atuação da ONG Mãe Natureza.

Na década seguinte, o combate à poluição ganhou dimensão estadual.

O Projeto Tietê começou nos anos 1990 e recebeu investimentos expressivos. Na primeira etapa, executada entre 1992 e 1998, foram aplicados cerca de US$ 1,1 bilhão. Houve ampliação da infraestrutura de saneamento e melhora nos índices de coleta e tratamento de esgoto, mas a recuperação integral do rio não ocorreu.

O então governador Fleury chegou a estabelecer 2005 como horizonte para a despoluição completa do Tietê. O prazo passou, outras etapas foram lançadas e novos investimentos vieram, mas o objetivo não foi alcançado.

Governos seguintes deram continuidade a obras e programas de saneamento. Houve avanços concretos, mas o histórico do Tietê mostra também uma sucessão de metas adiadas diante de um problema que envolve toda a bacia hidrográfica.

O problema mudou de aparência, mas não desapareceu

Quem observa determinados trechos do Tietê no interior pode não encontrar a imagem clássica do rio escuro e praticamente sem oxigênio que marcou a Grande São Paulo durante décadas.

Isso não significa que a água esteja livre de poluição.

Os problemas assumem diferentes formas ao longo do curso do rio. Em alguns locais surgem espumas; em outros, lixo flutuante, excesso de nutrientes, algas ou grandes concentrações de vegetação aquática.

Neste mês, por exemplo, uma cheia voltou a arrastar grande quantidade de lixo para o Parque de Lavras, em Salto. Segundo informações da Prefeitura citadas pela imprensa, aproximadamente 130 toneladas de resíduos flutuantes são retiradas anualmente do Tietê naquele município.

Em julho, o rio também voltou a apresentar uma extensa camada de espuma na região de Salto. A ocorrência foi relacionada à concentração de poluentes durante a estiagem e à turbulência das águas.

São sintomas diferentes de um mesmo desafio: impedir que esgoto, resíduos sólidos e outros contaminantes continuem chegando ao rio.

Aguapés e algas viram novo sinal de alerta

Córregos dssa Bacia do Tietê também sofrem com a vegetação, comoo Córrego Lafon, em Araçatuba. Crédito: Antônio Crispim (julho de 2022)

No interior paulista, outra imagem passou a preocupar moradores, pescadores, operadores de turismo e quem utiliza o rio: a proliferação de vegetação aquática e algas.

O problema já exigiu intervenções e monitoramento e pode afetar usos múltiplos do Tietê, especialmente quando grandes massas vegetais se acumulam em determinados pontos.

A proliferação excessiva desses organismos pode estar associada à disponibilidade elevada de nutrientes na água, tornando fundamental identificar as fontes e enfrentar as causas do problema, em vez de atuar somente sobre aquilo que aparece na superfície.

Em Sabino, onde a praia municipal é um importante espaço de lazer às margens do Tietê, o Estado iniciou neste ano uma experiência com tecnologia de ultrassom e inteligência artificial para auxiliar no controle de algas. O projeto integra o programa IntegraTietê.

Governo aponta avanços

Seria incorreto afirmar que nada mudou.

Dados divulgados pela Cetesb neste mês indicam redução de 26,7% na carga de poluição orgânica do Tietê no trecho da Grande São Paulo na comparação com 2025. A média de matéria orgânica transportada teria passado de 210 para 154 toneladas por dia, considerando os dois primeiros trimestres de 2026.

O atual Governo de São Paulo concentra as ações no IntegraTietê, que reúne iniciativas de saneamento, desassoreamento, retirada de resíduos e monitoramento ambiental.

Neste ano, o Estado também anunciou monitoramento por satélite de aproximadamente mil quilômetros do Tietê e seus reservatórios, além de tecnologias para acompanhamento da qualidade da água e combate à proliferação de algas.

Os números mostram avanços importantes. Mas o levantamento que encontrou contaminantes ao longo de toda a extensão pesquisada do rio deixa evidente o tamanho do caminho que ainda precisa ser percorrido.

Secretária vai a Sabino nesta quarta-feira

Um dia depois da data dedicada ao Tietê, a secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, tem visita prevista para esta quarta-feira (23), a partir das 12h30, à Praia Municipal de Sabino, no Noroeste Paulista.

A agenda encerra uma expedição técnica pelo Tietê e prevê a apresentação dos resultados do projeto-piloto instalado no município para combater a proliferação de algas e a formação da chamada “nata verde”.

A iniciativa utiliza boias equipadas com tecnologia de ultrassom e faz parte das ações do IntegraTietê. O Estado já havia anunciado em junho o emprego dessa tecnologia em Sabino como uma das medidas de recuperação ambiental do rio.

A visita coloca novamente o interior paulista no centro da discussão sobre o futuro do Tietê.

O rio não pode viver apenas de novas promessas

Mais de três décadas se passaram desde que São Paulo decidiu reservar no calendário um dia para homenagear seu principal rio.

Nesse período, houve obras, investimentos, ampliação do saneamento e avanços ambientais que precisam ser reconhecidos. Mas também houve prazos não cumpridos e a permanência de problemas que mudam de forma conforme o Tietê atravessa o Estado.

Para a população ribeirinha, o problema não está apenas em relatórios ambientais. Está na pesca prejudicada, na água tomada por vegetação e algas, no lixo que desce pelo rio, na perda de espaços de lazer e na preocupação permanente com a qualidade da água.

O Tietê atravessou a história de São Paulo. Ajudou a abrir caminhos, produzir energia, transportar riquezas, abastecer cidades e sustentar famílias.

No seu dia, talvez a homenagem mais necessária não seja celebrar o que o rio representou no passado, mas cobrar o que ainda precisa ser feito para garantir que ele tenha futuro.

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