Se o Brasil fosse submetido a uma banca de editores de ficção, nosso manuscrito seria devolvido com uma nota impiedosa na margem: "Inverossímil. O autor perdeu a mão na coerência dos personagens". Mas a nossa realidade não sofre com o rigor da literatura; ela flui livre, leve e absurdamente contraditória pelos jornais da manhã.
Tivemos, há pouco, o nosso momento de gala. O país inteiro vestiu o terno da erudição para celebrar o primeiro Oscar do cinema nacional. O troféu veio coroar uma obra necessária, um soco no estômago que escancarou as entranhas e os fantasmas da nossa ditadura militar. Saímos das salas escuras com os olhos marejados e o peito estufado, convictos de que a arte havia, finalmente, iluminado as trevas do passado. "Nunca mais", sussurramos no saguão do cinema, enquanto limpávamos as lágrimas com a pipoca restante.
A ressaca da lucidez, contudo, durou pouco mais de um ano. Com o mesmo dedo que o brasileiro usou para tuitar textões emocionados sobre a memória e a liberdade, ele apertou o "confirma" nas urnas eletrônicas para guindar ao poder um saudosista confesso do mesmíssimo regime. Há de se admirar a flexibilidade moral e interpretativa do nosso eleitorado. É uma espécie de esquizofrenia cívica: aplaude-se a denúncia da tortura no tapete vermelho e, logo depois, elege-se o fã do torturador para o Palácio do Planalto. O espectador brasileiro cansou de chorar pelo passado; ele quis comprar o ingresso para a sequência do filme.
Mas o cardápio de surrealismo semanal não estaria completo sem as promessas do horário eleitoral. A última joia da coroa vem da propaganda de Flávio, que, num surto de generosidade lírica, prometeu que a saúde pública em seu governo terá o "padrão Albert Einstein".
Para quem já passou uma madrugada fria na fila de uma UPA tentando conseguir uma ficha para o clínico geral, a promessa soa como poesia pura. É o realismo mágico latino-americano em sua máxima potência. Fico aqui a imaginar a transformação: o cidadão dá entrada no postinho com uma topada no dedão e é recebido por uma concierge bilingue, que oferece um lenço umedecido com aroma de lavanda enquanto o direciona para a tomografia computadorizada de última geração. As macas enferrujadas nos corredores darão lugar a lençóis de quatrocentos fios de algodão egípcio, e o tradicional "não tem dipirona na farmácia" será substituído por "gostaria de uma cápsula de Nespresso enquanto aguarda a sua medicação importada?".
O horário político é o único lugar do mundo onde o orçamento é infinito e a tabela do SUS é indexada pelo mercado de luxo.
Entre o Oscar da memória curta e o hospital público com manobrista, o brasileiro vai sobrevivendo na base do humor. Afinal, se não rirmos do roteiro que nós mesmos escrevemos nas urnas, teremos que admitir que o filme, na verdade, é de terror. E esse, infelizmente, não tem direito a intervalo.
ALMIR FERNANDES LIMA
ADVOGADO






