De antigas sobremesas preparadas com neve e frutas à produção artesanal que atravessa gerações em Itápolis, o sorvete percorreu séculos de história até se transformar em um dos alimentos mais populares do mundo.
Nesta quarta-feira, 23 de setembro, Dia Nacional do Sorvete, Itápolis tem um motivo adicional para celebrar uma atividade que já se tornou parte de sua identidade econômica e cultural: a cadeia produtiva local estruturou um novo centro destinado à capacitação dos profissionais do setor.
O espaço foi viabilizado com recursos de fomento do SP Produz, iniciativa da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, e pretende transformar uma tradição passada entre gerações em mais qualificação profissional, oportunidades de negócios e turismo gastronômico.
Por que 23 de setembro é o Dia do Sorvete?
Apesar de muitas vezes aparecer nas redes sociais como “Dia Mundial do Sorvete”, no Brasil a denominação adotada pelo setor é Dia Nacional do Sorvete.
A data foi criada em 2002 pela Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes (ABIS). A escolha de 23 de setembro está relacionada à chegada da primavera e ao começo das estações mais quentes do ano, período tradicionalmente associado ao aumento do consumo do produto.
Segundo a entidade, a criação da data teve entre seus objetivos ampliar a visibilidade do sorvete, estimular o consumo e a produção e chamar a atenção para o potencial econômico da atividade.
Em 2026, a própria ABIS voltou a destacar oficialmente o 23 de setembro como Dia Nacional do Sorvete, mantendo uma celebração que já completa 24 anos.
Mas onde nasceu o sorvete?
Determinar exatamente quem inventou o sorvete não é uma tarefa simples. As sobremesas geladas passaram por diferentes povos e transformações antes de chegar ao produto conhecido atualmente.
Segundo histórico divulgado pela ABIS, registros antigos remetem à China, onde neve era misturada a frutas. Técnicas semelhantes chegaram aos árabes, que produziram caldas geladas conhecidas como sharbet, associadas posteriormente à evolução dos sorbets.
Há também relatos históricos de consumo de preparações com neve, frutas e mel entre gregos e romanos. Séculos depois, a Itália teria papel fundamental no aperfeiçoamento e na popularização das sobremesas geladas pela Europa.
No Brasil, segundo a ABIS, o sorvete começou a ganhar espaço em 1834, no Rio de Janeiro, quando comerciantes passaram a utilizar gelo importado dos Estados Unidos para produzir sobremesas geladas com frutas brasileiras. Como ainda não existiam equipamentos capazes de conservar o produto adequadamente, os consumidores precisavam saber o horário em que o sorvete estaria pronto para consumi-lo rapidamente.
Quase dois séculos depois, a produção ganhou escala industrial, tecnologia e milhares de combinações de sabores.
E, em Itápolis, ganhou também identidade própria.
Imigrantes ajudaram a criar tradição em Itápolis
A relação do município com o sorvete está ligada à chegada de imigrantes provenientes da região do Vêneto, na Itália, território de forte tradição na produção de gelatos.
Receitas e conhecimentos foram transmitidos entre gerações e ajudaram a fazer do sorvete parte da cultura e da atividade econômica de Itápolis.
Essa tradição ainda permanece dentro dos negócios familiares.
Marcela Cristiane Marques da Silva Ferrari, presidente da Associação do Setor de Sorvetes de Itápolis e Interior Paulista (ASSIIP), administra com a família o Shopping do Sorvete, onde é mantida uma receita desenvolvida há quase cinco décadas.
“Fazemos o nosso sorvete com uma receita de família que tem quase 50 anos. Optamos por fazer um produto com poucas substâncias químicas, usando leite in natura, geleias e frutas frescas”, afirma Marcela, que atua no ramo há quase 30 anos.
Tradição agora vira capacitação

Com recursos do SP Produz, a ASSIIP, responsável pela gestão da Cadeia Produtiva Local (CPL) do Sorvete de Itápolis, estruturou o Centro Compartilhado de Capacitação.
O espaço também funciona como sede da associação e base operacional da cadeia produtiva.
Atualmente, tem capacidade para aproximadamente 25 pessoas e já recebe aulas teóricas, reuniões, oficinas e atividades de qualificação.
“O principal avanço foi transformar a vocação histórica de Itápolis em uma estrutura organizada. Por meio da CPL procuramos reunir os diferentes elos que integram o setor de sorvetes, articulando empresas, fornecedores, poder público e instituições de apoio”, explicam Marcela Ferrari e o vice-presidente da ASSIIP, Flávio Augusto Alves da Silva.
De boas práticas a marketing digital
Entre as capacitações já realizadas estão atividades nas áreas de Finanças, Marketing Digital, Gestão de Pessoas e Boas Práticas de Fabricação.
O centro também recebeu encontros e oficinas relacionados ao trabalho para construção da Indicação Geográfica do Sorvete de Itápolis.
A estrutura conta ainda com equipamentos destinados à formação prática dos profissionais, entre eles pasteurizadora, liquidificador profissional e mesas de apoio.
“Os recursos do SP Produz vêm sendo aplicados tanto em infraestrutura física e equipamentos quanto na construção de uma estrutura institucional, digital e de capacitação capaz de permanecer como legado para a cadeia produtiva mesmo após a execução do projeto”, afirma Marcela.
Mais de 20 sorveterias
A força da atividade também aparece na quantidade de estabelecimentos.
Itápolis possui mais de 20 sorveterias e nove delas estão atualmente ligadas formalmente à ASSIIP.
A cadeia produtiva mantém ainda a Rota do Sorvete, iniciativa que procura associar a tradição local ao turismo gastronômico.
Segundo a associação, moradores de outras cidades viajam até Itápolis especialmente para conhecer sorveterias e experimentar a produção local.
A Prefeitura também mantém a Rota do Sorvete entre os roteiros divulgados pela área municipal de Turismo.
Dos sabores tradicionais às combinações menos convencionais, há opções como gorgonzola, doce de leite e açaí.
SP Produz tem inscrições abertas
O edital de 2026 do SP Produz para reconhecimento de novas Cadeias Produtivas Locais recebe inscrições até 28 de setembro.
A iniciativa permite que empresas, produtores e entidades de diferentes segmentos se organizem em cadeias produtivas e tenham acesso às ações previstas pelo programa estadual.
Em Itápolis, o resultado dessa organização já pode ser visto no novo centro de capacitação.
Uma atividade que começou com receitas preservadas pelas famílias de imigrantes passa agora a reunir formação profissional, tecnologia, organização empresarial e turismo.
Neste 23 de setembro, a história do sorvete ajuda a explicar também a história de Itápolis: uma tradição que atravessou gerações e que agora busca transformar conhecimento em desenvolvimento econômico.






