Terça-feira, 22 de setembro de 2026
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O Italiano

Reinaldo Aparecido Chelli Moravam na roça, a seis quilômetros de uma pequena cidade do interior paulista, em uma pequena fazenda.

O Italiano

Reinaldo Aparecido Chelli

Moravam na roça, a seis quilômetros de uma pequena cidade do interior paulista, em uma pequena fazenda de café, que foi criada do nada pelo avô italiano e transmitida aos filhos. O conforto era quase inexistente: não havia energia elétrica, água encanada, móveis estofados, camas com colchões de molas ou espuma.  Comida havia em abundância; tudo era plantado e produzido ali. Do essencial não faltava nada.

O avô possuía um rádio, através do qual ouvia as notícias e as transmitia aos filhos, noras, netos e agregados. Ele também assinava um jornal — isso mesmo — cujas edições eram retiradas com certo atraso, no correio da cidadezinha. As notícias, evidentemente, chegavam envelhecidas. Era um hábito adquirido, sabe Deus quando e como, por aquele italiano que não dispensava uma cachacinha na boca da noite, durante a prosa animada em volta do poço, no centro do quintal.

Excetuando-se os mais idosos, o restante da família trabalhava na roça, incluindo o trato dos animais, a extração do leite e o cuidado da horta. O cultivo era variado: milho, arroz, feijão, amendoim, mas o forte mesmo era o café. Filhos, noras, netos — todos trabalhavam. Os pequenos aprendiam a realizar serviços simples, que aumentavam em peso e importância à medida que cresciam.

A nova geração era incentivada a estudar. O avô tinha plena consciência de que a propriedade não seria suficiente para sustentar as novas gerações da família. Era preciso estimular os netos a se dedicarem aos estudos para buscar emprego na cidade, onde o ganho era maior e a qualidade de vida, acreditava,  melhor.

Os jovens estudavam na escola rural até a conclusão do primário. Depois, o estudo precisava ser feito na cidadezinha, para onde iam e voltavam a pé todos os dias. À tarde, os bravos estudantes iam   para a roça.  À noite  faziam as lições à luz de lamparinas. Os mais adiantados davam reforço para os que tinham mais dificuldade e alfabetizavam os menores que, para espanto geral, ingressavam na escola já sabendo ler e escrever.

Dessa geração surgiram mecânicos, médicos, servidores públicos (a maioria) e alguns advogados. À medida que progrediram nos estudos, conseguiram emprego no comércio local e, posteriormente, no serviço público, sempre mediante concurso. Alguns, com economia própria, se estabeleceram. Em comum, o exercício simultâneo do estudo e do trabalho.

O tempo passou, o avô morreu, e os filhos também. A fazendinha foi dividida; parte foi vendida e a parte ainda hoje conservada foi arrendada. Ninguém das novas gerações pisa lá há anos. Os netos, bisnetos e tetranetos  se espalharam pelo Brasil e alguns pelo mundo. Nenhum deles ficou rico estudando e trabalhando, mas todos conquistaram uma vida digna.

Tudo isso graças a muito trabalho, estudo e, em grande parte, à visão de um velho imigrante italiano, que, há quase um século, soube entender que o país passaria por uma grande transformação e que a população rural se deslocaria em massa para as cidades, sendo que  aqueles que tivessem mais preparo alcançariam melhores condições de vida.

Reinaldo Aparecido Chelli

Servidor público aposentado

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