Sexta-feira, 2 de outubro de 2026
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O QUE RESTOU?

Vinheta

A campanha eleitoral de 2026 atingiu o ápice do seu surrealismo, transformando a clássica santíssima trindade "Deus, Pátria e Família" em uma daquelas piadas prontas que nem o melhor comediante conseguiria roteirizar. No epicentro desse terremoto ético, o senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, protagoniza um enredo digno de comédia pastelão: as denúncias bombásticas reveladas na reta final da eleição apontam para a sua participação em festas de luxo com prostitutas de alto padrão no Rio de Janeiro. O castelo de cartas moralista desmoronou com tanto barulho e o slogan conservador virou meme instantâneo nas redes: restou apenas o grande e institucionalizado puteiro.

O tombo da retórica foi cirúrgico e atingiu cada pilar do discurso oficial:

• O "Deus" virou metáfora jurídica: A promessa fervorosa de Flávio de "decretar o Brasil para o Senhor Jesus Cristo" virou poeira. Pressionado pela repercussão negativa e pela polêmica envolvendo o pastor de sua igreja (que atacou a devoção a Nossa Senhora Aparecida), a assessoria correu para explicar que a promessa era "apenas figurada". Pelo visto, a fé só vale no plano espiritual se não atrapalhar o plano eleitoral.

• A "Pátria" virou um balcão de negócios: O patriotismo inflamado agora é medido pelo tamanho do patrimônio. Ao registrar sua candidatura, Flávio declarou ao TSE um salto impressionante de R$ 8,18 milhões em bens, valor quase cinco vezes superior ao de 2018. Enquanto a pátria chora a inflação, a mansão de R$ 6,2 milhões do senador em Brasília segue firme, provando que o nacionalismo joga muito bem no mercado imobiliário.

• A "Família" foi parar no hotel de luxo: O último pilar ruiu da forma mais mundana possível. Mensagens vazadas trouxeram à tona mimos patrocinados por lobistas, ligações nebulosas com banqueiros e as infames farras privadas. A tradicional família brasileira, tão defendida nos microfones do Congresso, aparentemente foi esquecida na recepção de um hotel cinco estrelas.

Com o puritanismo em ruínas, a campanha adotou a estratégia do vale-tudo. Para tentar conter a sangria e salvar os votos na contagem regressiva para o primeiro turno, Flávio não hesitou em trazer para o seu palanque o coach e ex-candidato Pablo Marçal, escalado às pressas como o novo "consultor de prosperidade" da equipe. No fim do dia, a cortina da hipocrisia caiu de vez. Sem o templo da fé e sem o altar da moralidade, o que sobrou da República foi a negociação nua e crua: um grande balcão de negócios onde a ética é negociada por hora e os valores tradicionais não passam de mercadoria barata. Restou apenas o grande e institucionalizado puteiro.

ALMIR FERNANDES LIMA

ADVOGADO

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