Sexta-feira, 25 de setembro de 2026
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Que acabe em pão

CINTHYA NUNES

Estou um tanto (muito) cansada de ler, falar e escrever sobre a política, sobre as intermináveis e sucessivas notícias de que a corrupção no Brasil está tão enraizada nos círculos de Poder deste país, de ver as pessoas brigarem pelo partido X ou Y, ignorantes de que, ao fim e ao cabo, os poderosos parecem pouco ou nada se importar com isso, exceto com as possibilidades que os futuros cargos lhes renderão. Há exceções, mas o padrão de corte deixou de ser régua; virou o resultado de  um eletrocardiograma: não faço ideia de como interpretar.

Falta muito pouco para o 1º turno e, enquanto isso, seguimos ouvindo troca de ofensas e promessas de todas as grandezas. Até o significado de promessa, neste contexto, passou a ser deturpado, porque deixou de ser algo que se pretende cumprir. Promete-se toda e qualquer coisa, sem que haja sequer intenção ou possibilidade de que sejam exequíveis. Nem me espantarei se algum candidato (de qualquer partido, registre-se) prometer, se eleito, banir a morte: “no meu mandato, ninguém mais vai morrer”, sob aplausos calorosos de admiradores que escutam sem ouvir.

De minha parte, busco ao máximo respeitar as opiniões alheias sobre política, ao menos socialmente, em um exercício de educação e de democracia. Ainda que tenha minhas convicções, não tenho adoração por nenhum candidato, embora por outros eu tenha verdadeira repulsa. Entretanto, não saio ofendendo quem pensa diferente, ainda que, em muitos momentos, dentro de mim, as palavras se estapeiem para sair, formando imensas bolas indigestas, eis que reprimidas. Não aconselho, a propósito, uma dieta à base de palavras malpassadas.

Tal qual muitos brasileiros, ando precisando de zonas de respiro, de esquecer, ainda que por algumas horas do dia, que minha vida e a de tantos outros vive nas mãos de quem ocupa os mais altos cargos, que recebe, não raro, muito mais do que deveria para tal mister. Vão decidir quando e se me aposentarei, se posso ou não exercer meu direito de liberdade de expressão, se democracia é apenas uma palavra paroxítona e se os estudantes devem saber o que é isso, ainda que muitos deles também não saibam.

Assim, recolhida ao mundo das minhas escolhas, resolvi fazer algo realmente bom e inofensivo: pão. Dito alimento tem várias camadas de significados em minha vida. Parte de minha infância e adolescência estive dentro de uma padaria e o restante da vida, fazendo e comendo pão. Durante a pandemia, ocupei mãos e sentimentos dando forma e sabor a pães diversos. O aroma de pão quente, recém-surgido do forno, para mim funciona como o presságio de um portal mágico, o qual acesso sem pudores e repleta de memórias.

Há vários anos eu comprei uma máquina de fazer pães. Sofri bastante até achar receitas que ficassem boas, embora nada se compare, ao meu sentir, ao pão que é feito artesanalmente, moldado com as mãos. A máquina, porém, tem algumas vantagens interessantes e uma delas é poder programá-la para que o pão fique pronto em um horário específico, como nas primeiras horas da manhã. E assim, nesses dias nebulosos de tantas incertezas jurídicas e éticas, eu me reservo o direito da certeza de que acordarei pelo aroma do pão quente e perfumado, à minha espera.

Acredito que na Caixa de Pandora restaram a esperança e o pão. Não sei se tudo vai terminar, uma vez mais, em pizza, daquelas oleosas e malfeitas, mas, no que respeita à paz que consigo preservar, terminará em pão. Enquanto puder, eu o prefiro aos brioches, inclusive.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e prefere pão a muitas decisões judiciais – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

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