Acordei cedo com um belo presente: o sorriso de minha mãe! A idade lhe chegou, mas ela mantém otimismo invejável sobre a vida (lembrando até Pangloss, personagem do livro Cândido, de Voltaire), e nem mesmo o lúcido pessimismo de Schopenhauer a abateria.
Acho, porém, que pessimistas são mais propensos a melhorar o mundo, porque otimistas acreditam que tudo está bom (Saramago).
Ela já tinha preparado o café, cujo aroma “passeava” pela casa. Passei a observar o seu jeito peculiar de lavar a louça, lentamente, desfrutando do momento, como numa oração. Viver bem o presente e apreciar coisas simples é uma arte, como pensava Pierre Weil.
Ela é uma mulher de fé, diferente de mim. Nunca pude entender se Deus existe, como ela crê. Mas, se ele existe, por que há tanta maldade e violência no mundo?
Santo Agostinho dizia que se trata de livre-arbítrio, sendo a maldade culpa do homem e não de Deus; porém, tenho dúvida acerca disso.
Sobre o que acho do “Criador”, se é que eu possa chamá-lo assim, talvez se aproxime mais ao Deus de Espinoza, não ao judaico-cristão. Seria algo divino parecido com o panteísmo. Pode ser que eu seja ateia, ou mesmo agnóstica.
E se Deus existir, de qualquer modo, por ele ser considerado bom, ele seria Deus de todas as religiões, sem um apartheid que existe na humanidade, móvel de guerras e outras atrocidades.
O monólogo do Grande Inquisidor, de Dostoiévski, na obra Os Irmãos Karamázov, fez-me pensar bastante sobre fé e religiosidade.
O ser humano crente cultua religiões e seus rituais, mas comumente se comporta de forma contrária aos preceitos de suas doutrinas, como, a exemplo, venerar Jesus Cristo, modelo de ética, e não pôr em prática seus ensinamentos.
Dizer-se cristão é diferente de seguir o exemplo de Cristo. Até por isso Nietzsche afirmava (no livro Anticristo) que o único cristão era o próprio Cristo.
Sou apegada demais à minha mãe e ela a mim. Meus irmãos foram embora de casa com pouca idade e meu pai faleceu há muito tempo, por doença. Desde então, somos amigas, companheiras e confidentes.
Ela acabou de lavar a louça, olhou-me ternamente e perguntou se eu estava bem. Em seguida, me deu um apertado abraço que retirou o peso das minhas preocupações mundanas.
Durante o café, ela passou a conversar sobre a importância de ver o mundo com otimismo, mas sem idealismo, explicando que o ser humano não é perfeito, portanto, logicamente, nem nós éramos.
Disse-me:
“Somos aquilo que pensamos e fazemos; pensar coisa boa gera coisa boa, pensar coisa ruim, o contrário; fazer é a mesma coisa...”.
Mostrou-me em seguida a orquídea rosa no vaso multicor sobre a mesa da sala e disse:
“Isso é vida e uma forma de Deus mostrar a sua presença; ele não precisa surgir do nada e se sentar conosco fisicamente, como quis São Tomé: ele nunca está, porque ele é, ou seja, ele existe por si, independente de tudo e todos”.
E concluiu, de forma pedagógica, quiçá teológica:
“Isso é ter fé, querida filha”.
Confesso que nunca entendi de onde surgiam essas ideias dela. Ela é analfabeta, mas fala de coisas com sabedoria socrática ou agostiniana.
Quando o meu vazio existencial me domina, talvez influenciada por Nietzsche, em especial em Assim Falou Zaratustra, A Genealogia da Moral e O Anticristo, o colo dela é o meu refúgio.
O niilismo às vezes me invadia. Nesses momentos, ela me olhava como se desvendasse meus pensamentos e isso preenchia o meu “hiato existencial” sartriano, como um “acolhimento psíquico”.
Quando eu ficava assim, confesso, sentia-me como o inseto de A Metamorfose, de Kafka. Achava-me inadequada perante as pessoas e o mundo, desprezada, mas com a presença da minha mãe, era diferente.
Eu não consigo entender, também, como minimalista, por que, para a maioria, coisas são mais importantes do que pessoas, ou que a acumulação de bens materiais seja um fim em si mesmo.
Como dizem por aí, popularmente: “Caixão não tem gaveta”.
Tudo isso mexe comigo, me tira o sono e bate o niilismo. Fico me indagando, ainda: que importância tenho neste mundo? Nascer para morrer? Qual o sentido da vida?
Nem O Mito de Sísifo, de Camus, me socorre nesse dilema existencial.
Mais uma vez ela, percebendo a minha angústia, acariciava meus cabelos e dizia:
“Filha, a vida é uma oportunidade ímpar! A caminhada é mais importante do que o fim do caminho” (que me lembrou o poeta Thiago de Mello).
E continuou:
“O segredo da vida boa é o desfrutar dela nos bons momentos, e saber lidar com adversidades nos momentos ruins, fazendo sempre bem ao próximo, mesmo diante do mal que impera na sociedade”.
E continuou:
“Não importa o que acontece, filha – a causa, em si –, mas importa muito como se reage diante do acontecimento (causa)”.
Quando eu digo que minha mãe é sábia, não minto! É mesmo.
Posso até discordar dela em certos assuntos, mas há algo nela que me chama a atenção, como se fosse um mistério. Repito: como uma pessoa tão simples, sem arcabouço acadêmico, como tenho, pode ter ideias tão originais e profundas?
O rosto dela, marcado pelo tempo, não retirava a sua beleza: tinha olhos negros, vívidos e rosto fino, bem delineado, que exprimiam no olhar uma paz peculiar; o seu modo de falar, manso, acalmava, lembrando até a Monja Coen.
Ter ela ao meu lado, dia a dia, era o móvel que me fazia levantar da cama e enfrentar problemas.
Dias passaram, depois desse, em especial, e percebi algo anormal: ela não estava bem de saúde. Passou a ficar apática e ter dores abdominais.
Levei-a ao médico e o diagnóstico me tirou o chão: estava com câncer, mieloma múltiplo, em fase terminal.
Esse resultado não foi passado a ela e não tive coragem de dizer-lhe, mas sei que ela pressentia que em breve partiria.
Lembrei de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e pensei: serei o Guerássim e cuidarei dela até o último suspiro, para que parta com dignidade.
Nos derradeiros dias, ela me pedia para ler, além da Bíblia (era católica), trechos do livro Imitação de Cristo, de Thomas Kempis, e das “cinco provas” da existência de Deus, Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino.
Perceba-se: a fé dela não diminuiu diante da morte, ao contrário, aumentou.
Assim, em menos de um mês ela se foi, serena como uma “nau em águas calmas”.
O velório foi simples, como ela gostaria, com a presença de poucos parentes e amigos da família. Durante essa cerimônia de despedida, tive a sensação estranha de ela estar ali, viva, ao meu lado.
O meu “porto seguro”, pois, se foi.
A vida é efêmera.
Como Platão, em Teoria das Ideias, que ensinou sobre a existência de um mundo sensível (material) e outro das ideias (metafísico), ela dizia sobre a existência de uma vida diferente depois da morte, que seria um recomeço.
Não acredito, infelizmente, em algo assim. Infelizmente, porque gostaria de acreditar.
Penso que a vida acaba com a morte e nada mais. Somos seres finitos e biológicos, quiçá, futuros germes (Darwin e Schopenhauer).
Tudo que vive morre ou “do pó viemos, ao pó voltaremos” (Gênesis 3:19).
Ou como poetizou Fernando Pessoa, no poema Quinta, sobre o homem, ao final do texto: “... Cadáver adiado que procria...”.
Ou como Freud, em O Futuro de uma Ilusão e em Totem e Tabu, também teorizou: “A fé é uma infantilidade psíquica do homem, que busca um segundo pai (substituto) para aplacar o desamparo humano”.
Ou estou absolutamente enganada – e posso estar – e existe vida pós-morte?
Se estiver enganada, quero reencontrar meus pais, em especial minha mãe, e voltarei para contar a todos, como o fez Brás Cubas (em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis), com peculiar ironia – como na introdução do livro está:
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.
Ou Ivan Ilitch (em A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói), com pesar, arrependimento e sofrimento, diferentemente de Brás Cubas.
Adelmo Pinho é escritor e membro das academias de letras de Araçatuba e Penápolis. É colaborador do portal Nossa Cidade, onde publica periodicamente a coluna Para Refletir, dedicada a reflexões sobre a vida, a sociedade, a filosofia e a condição humana.






