Houve um tempo em que as cores eram somente cores, nada mais. A gente escolhia aquela de que mais gostava, fosse para vestir, fosse para pintar um desenho na escola. Cada uma com sua beleza, seu significado. Sou fascinada por coisas coloridas. Não vejo a menor graça em um mundo onde elas não possam existir e coexistir. Em minhas horas vagas, brinco de ser artista, cercada por aquarelas, lápis de cor, canetinhas, gizes de cera, guaches, linhas, lãs etc.
Curiosa, estudo a teoria das cores, as origens dos pigmentos e sigo me encantando com os efeitos que produzem quando bem combinadas, misturadas, contrastadas. Isoladas, nem se comparam ao que fazem quando juntas. Matizes, tonalidades, saturação, tudo isso modifica como as cores se comportam, o que expressam. Quando se busca ilustrar alguma cena, representar uma ideia, as escolhas das cores podem trazer significados diferentes, tais como alegria, tristeza, melancolia, paz, entre outros tantos.
Quando criança, tinha duas preferências: vermelho e amarelo. Não era incomum que, se me fosse dado escolher, usasse uma peça de cada, sem qualquer senso de estética. Apenas porque eu gostava também de maçã e banana. A justificativa me parecia perfeita. Tempos depois, na adolescência, passei ao preto. Até batom quase preto (não me julguem, rs) cheguei a usar. Cabelo, sapato, vestido, lápis de olho, tudo absolutamente preto, como um luto pela despedida da infância.
Em algum momento, porém, tive um encantamento pelo azul, o que permanece como preferência até hoje. Talvez seja pela cor do céu, mas o azul celeste segue como minha cor preferida. Não significa, no entanto, que eu não goste das demais. De fato, tenho certa antipatia pelo roxo, ainda que o lilás me pareça amigável. E tudo isso, na verdade, pouco deveria importar, exceto que, nos dias de hoje, as pessoas se apropriaram de algumas cores, como se lhes pertencessem.
Passei uma vida desenhando arco-íris nos meus cadernos, perseguindo potes de ouro cada vez que avistava um, maravilhando-me ao descobrir que sei criá-los usando um jato de água direcionado ao sol. Para mim, os arco-íris pertencem a todos, mas quando o usei em uma blusa, certa vez, fui repreendida porque, segundo meu interlocutor, se não pertenço a certa sigla, não me era legítimo usá-lo.
Com o vermelho é ainda pior. Tenho muitas roupas vermelhas, somente porque gosto da cor. Nada, NADA, mais. Mas em tempos de eleição, tenho receio de que pareça bandeira de partido, sobretudo de um que não me representa. Por outro lado, tive receio de ir votar com uma blusa amarela que, naquele dia, estava limpa e passada, no jeito de ser usada. Diante de tanta gente radical, também não arrisquei. Em que momento as cores do meu, do nosso sangue, do sol, das árvores e do arco-íris se tornaram propriedades alheias e exclusividade de alguns grupos?
É óbvio que nem todo mundo tem ideias tão curtas, tão cinzas. Entendo que há cores carregadas de simbologias, mas acredito que a combinação delas é sempre o melhor caminho e isso nem é somente sobre cores. Jamais aceitarei que alguém dite as cores que me caem bem, da mesma forma que me permito o direito de mudar de ideia. Talvez um dia eu goste do roxo, quem sabe? Por ora, prefiro as mil paletas, a profusão que colore os meus dias, que me permite ver além de um único caminho estético, ideológico.
Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e faz arte, vez ou outra – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br/






