A história não se repete como uma cópia, mas reproduz sinais reconhecíveis: a fabricação de inimigos, promessas de soluções fáceis, desprezo pelas instituições e a apresentação de direitos e limites democráticos como obstáculos. Quando esses sinais reaparecem, a pergunta não deve ser apenas por que o eleitor os aceita, mas por que políticos, partidos e cidadãos preferem tratá-los como inofensivos.
A ascensão do nazismo permanece como advertência extrema sobre o que ocorre quando o autoritarismo se normaliza, a desumanização vira discurso político e a violência é apresentada como resposta legítima. Isso não significa classificar toda força de extrema direita como nazista: comparações históricas exigem rigor. Significa reconhecer que movimentos autoritários podem crescer dentro de democracias e usar eleições, parlamentos e liberdades para enfraquecê-las por dentro.
O extremismo raramente se apresenta com seu nome mais assustador. Costuma aparecer como ordem, segurança, patriotismo ou rebeldia contra uma elite desacreditada. Em cenários de insegurança econômica, desigualdade e frustração com governos e partidos, líderes radicais oferecem culpados identificáveis e respostas simples para problemas complexos.
Nesse quadro, Donald Trump, principal articulador da extrema direita nos Estados Unidos e Nayib Bukele, Presidente de El Salvador, com seus estilos nacionalismo, populismo, confronto com instituições e ataques a adversários influenciaram significativamente políticos como Jair Bolsonaro e outros líderes da direita radical no continente. A influência, porém, não deve ser confundida com origem: os movimentos latino-americanos também decorrem de crises, disputas e histórias próprias.
Diferentemente de Bukele, Trump enfrenta hoje forte rejeição em seu país. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 5 de outubro de 2026 registrou 65% de desaprovação e 32% de aprovação. O dado revela desgaste, mas não permite decretar o fracasso da extrema direita nos Estados Unidos: a impopularidade de um presidente não equivale ao desaparecimento de um movimento político.
Também é tentador concluir que os professores de História falharam. Ensinar datas, regimes e atrocidades, contudo, não garante que os alunos reconheçam os mecanismos que podem preceder catástrofes: preconceito, bode expiatório, ataques à imprensa, desprezo por minorias e erosão dos controles democráticos. A UNESCO recomenda que o ensino do Holocausto ajude a entender como a violência em massa se torna possível, estimulando pensamento crítico, responsabilidade cívica e respeito aos direitos humanos.
A questão, portanto, não é apenas quanto se ensina, mas se a História é apresentada como realidade humana e política e não como sequência distante de capítulos encerrados. Tampouco convém culpar os jovens por despolitização. A participação política mudou de forma e podem ocorrer por redes, campanhas, protestos e conversas fora dos canais partidários tradicionais.
O problema não é que a humanidade tenha esquecido o passado, mas que ele costuma perder para as urgências do presente e para quem explora medo, raiva e descrença. A democracia não se protege com a lembrança ritual de que “isso nunca mais”. Protege-se quando escolas ensinam a interpretar a História, partidos defendem limites institucionais mesmo quando isso lhes é inconveniente e cidadãos recusam trocar direitos por promessas de ordem.
A memória não é vacina automática. Mas, sem ela, até os sinais mais conhecidos podem voltar a ser vendidos como novidade.
Evandro Everson dos Santos é policial militar aposentado e economista. Escreve periodicamente para o Ponto de Vista do portal Nossa Cidade






