Sexta-feira, 16 de outubro de 2026
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A primeira vítima

VINHETA

Há quase dez anos eu me deparei, lendo as manchetes dos jornais, com o caso de uma assassina em série de animais. Os fatos em si já foram suficientes para me revoltar, mas o que me capturou a atenção foi a alta condenação imposta pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Foi a primeira vez que, no Brasil, alguém recebeu uma pena de mais de dezessete anos de prisão pela morte de animais.

Resolvi pesquisar mais sobre o assunto e depois de algum tempo consegui acesso aos autos e entrevistei várias pessoas ligadas ao caso, como o pessoal da ONG que primeiro desconfiou da ré, que se intitulava protetora de animais e que depois se revelou uma assassina deles; também entrevistei o detetive particular que eles contrataram e cuja atuação foi indispensável para o deslinde e ainda, a desembargadora que teve a sensibilidade para julgar a ação movida pelo Ministério Público de São Paulo.

Tudo isso eu conto em detalhes em um livro que em algum momento publicarei, mas o caso me impulsionou a prosseguir pesquisando sobre o assunto, encontrando, para minha tristeza, vários casos similares. Infelizmente, no Brasil e em grande parte do mundo, a violência gratuita contra os animais ainda é negligenciada e normalizada por parte da sociedade. Há quem apenas não se importe, há quem considere que ter um olhar de compaixão e preocupação com os animais signifique automaticamente negligenciar os humanos e até há quem lucre e incentive tais atos. Aos poucos, porém, o cenário começa a se transformar.

De outro lado, na outra ponta, estão as pessoas que se importam com toda forma de vida e que repudiam a crueldade, gratuita e despropositada, entendendo ainda que, em muitos casos, a violência contra animais indefesos é balão de ensaio para a violência contra os seres humanos. Estudos demonstram que existem muitos assassinos ou mesmo pessoas com histórico de violência, sobretudo doméstica, iniciaram praticando-a contra pequenos e indefesos animais, não raro filhotes, primeiras vítimas silenciosas e invisíveis.

E assim, pensando nisso tudo, eu, que sempre acompanhei filmes, séries e canais do Youtube sobre crimes reais, tive há alguns anos, a ideia de criar um também, mas com enfoque nos animais. Foram várias tentativas, gravando sozinha, convidando amigos, tentando aprender a editar, usando celular para gravar. Horas e horas de um trabalho que nunca será exibido porque a qualidade da gravação, amadora demais, deixou a desejar. Um dia, porém, conversando com um amigo de longa data, a ideia ressurgiu. Ele havia montado um pequeno estúdio. E lá fomos nós gravar tudo de novo.

Casos para serem analisados há aos montes. Todos os dias novas barbaridades são cometidas. Problemas técnicos nos fizeram repetir algumas vezes as gravações, mas há alguns dias, por fim, o canal estreou. Optamos por fazer em formato de uma mesa de bate-papo, conversando sobre os reflexos desses crimes na sociedade, suas consequências jurídicas, com respeito à vida do animal, sem exposição de imagens chocantes e sem fins de justiçamento. É um convite à reflexão, acima de tudo, de que desprezar a violência à qual os animais são submetidos pela mera maldade humana é ignorar o quanto isso pode se voltar contra a própria humanidade.

Ainda não sabemos se o nosso canal, A PRIMEIRA VÍTIMA, que se destina a dar voz àqueles que não a possuem, atingirá um grupo expressivo de pessoas, mas se conseguir colocar o tema para debate, já teremos atingido nosso maior objetivo. Se você gosta do assunto, se tem curiosidade em saber mais, aproveita e nos siga no YouTube. Se puder, inscreva-se para acompanhar os episódios semanais, sempre às quartas-feiras.

Enquanto continuarmos fingindo que mal ao outro não nos atinge, que a dor dos vulneráveis, que a vida animal não importa em absoluto, cavamos, a cada dia, nosso próprio cadafalso. A primeira nunca é a única vítima.

Cinthya Nunes é jornalista, professora universitária e advogada – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br/@canalaprimeiravitima

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