A casa estava perfumada. O cheiro de erva-doce preenchia até as frestas dos pensamentos de Carolina. Já fazia um ano, mas parecia um minuto e uma vida. O silêncio assombroso de uma ausência que não se anunciara. Tudo de repente, sem avisos. Impossível de aceitar, ainda que se esforçasse para entender a finitude de todas as coisas contraposta ao infinito de alguns amores.
A partida não apagara os estragos feitos em vida, porém. A morte não o transformara em um “santo” e tampouco lhe diminuíra as muitas qualidades. O distanciamento dos dias vazios apenas ressaltava a importância e a desimportância dos detalhes, dos erros, dos acertos. A somatória, a mistura única que o compusera, que animara o corpo que ele habitara durante uma década, que lhe conferira o singular brilho nos olhos, a alegria diante das coisas mais simples, nunca mais se repetiria, prova das insubstituições na existência.
Tinha lembranças leitosas sobre o momento da despedida. A dor as tornara confusas, misturadas. Preferível que fosse assim. Ela se permitia relembrar de quando o tivera nos braços pela primeira vez, sem ideia de como a vida seria diferente dali em diante. Foram tantas risadas, brincadeiras, xixi e cocô que pareciam infinitos. Ele fora companhia, aconchego, calma, confusão e acrescentara vida aos dias que antes eram só relógio.
Ela não estava preparada para um partir tão precoce. Remédios e tratamentos foram inúteis. De repente tudo se tornou não. A angústia do não existir, da vida que não dá ré. Um ano de luto, de preces que dirigia ao Criador. Bastava um único sonho. Só queria sentir o cheiro, a textura da pele dele, dar mais um afago demorado. O sonho, porém, nunca veio. Se ele vivia do outro lado da vida, algo em que ela acreditava, por qual razão nunca a visitara para além dos pensamentos?
Agora, porém, havia uma esperança. Nunca soubera daquela data, daquela crença. Descobriu por acaso, enquanto navegava a esmo pelas redes sociais, o oceano moderno. Haveria um portal, um dia no qual ele teria permissão para visitá-la, atravessando o véu que divide os dois mundos. Decidiu acreditar. Mal não faria, não além daquele que já lhe afligia.
Assim, com um altar improvisado, no qual as comidas e brinquedos preferidos dele foram dispostos caprichosamente, ela esperou. Será que o veria, que se materializaria perto dela? As horas passaram e a espera se intercalou com as obrigações diárias, desordenando as batidas do coração. Ao cair da noite, agarrando-se ao pouco de esperança que ainda se recusava a ir embora, adormeceu na poltrona da sala, como fazia enquanto eles ainda a dividiam.
Acordou no meio da madrugada, com lágrimas nos olhos. Ele a visitara. No sonho, por um tempo que pareceu uma prorrogação da vida que tiveram, ele ronronava e se esfregava em sua perna, mordiscando-a devagar. Aquele abraço há tanto tempo guardado, quando ela o apertava até ouvi-lo reclamar baixinho, foi entregue, por fim. Soube naquele instante que haveria outros reencontros e que, de alguma forma, ele sempre estaria por perto. Um dia as saudades cessariam. Ao colocar as mãos no colo, teve a impressão de que o lugar estava quente, ocupado há pouco.
Naquela madrugada, foi para cama com o coração repleto. No dia seguinte se ocuparia de retirar o altar do “Dia dos Mortos dos Animais” e, ele esperava que ela pudesse notar o sachê comido pela metade e a barata deixada como agradecimento.
Cinthya Nunes é advogada, jornalista, professora universitária e às vezes também recebe baratas de presente – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br/ @canalaprimeiravitima (no YouTube)






