Reinaldo Chelli
Há uma frase frequentemente atribuída a Rubem Alves — embora sua autoria exata seja incerta e talvez remeta a um antigo provérbio francês — segundo a qual não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz. A ideia parece melancólica, talvez até exagerada, mas em poucas obras literárias se pode ver seu desenvolvimento com tanta profundidade quanto no primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.
Ao revisitar, sobretudo pela memória, os lugares, pessoas e sensações de sua infância e juventude, o narrador percebe que nada permaneceu intacto. As pessoas mudaram, envelheceram ou morreram; outras surgiram; os costumes desapareceram ou se transformaram; a atmosfera já não tem o antigo encanto. A constatação mais dolorosa é a de que quem regressa também já não é o mesmo.
A felicidade — ou aquilo que se julga ser felicidade — não estava propriamente nos lugares, mas no instante vivido. Dependia de uma combinação irrepetível entre idade, desejos, ilusões, pessoas e circunstâncias. Quando o tempo passa, desmonta silenciosamente essa construção. Restam apenas fragmentos preservados pela memória: um perfume, uma luz, uma música, uma rua, uma tarde.
O erro de quem regressa talvez seja imaginar que o passado continua guardado no espaço físico, à espera da volta. Não continua. O tempo leva tudo consigo — os outros, os cenários, os afetos e até a forma de sentir. Por isso, tantos reencontros decepcionam: o viajante tenta recuperar não apenas lugares, acontecimentos e pessoas, mas também uma versão antiga de si mesmo que deixou de existir.
Proust também mostra que o passado não desaparece inteiramente. Ele permanece adormecido, escondido em sensações e lembranças involuntárias que, às vezes, ressurgem inesperadamente. A memória não restitui a vida perdida, mas salva pequenas relíquias emocionais dela. E é justamente a arte que permite ao escritor transformar esses vestígios em experiência viva outra vez.
Talvez seja exatamente esse o sentido mais profundo da frase atribuída — provavelmente de forma equivocada — a Rubem Alves: não se evita voltar apenas porque o lugar, as pessoas e, principalmente, quem retorna mudaram, mas porque aquela felicidade pertence a um tempo que já não existe e ao qual ninguém retorna.
Quem quiser se aventurar pela obra de Proust deve saber que a jornada é longa, mas prazerosa. Em Busca do Tempo Perdido possui sete volumes que somam cerca de quatro mil páginas. A leitura é lenta e exige determinação, atenção e tempo. A recompensa, entretanto, vem da extraordinária beleza do texto e das imagens que o narrador consegue recriar pela memória.
A extensão da obra, a nosso ver, torna recomendável que a leitura seja desenvolvida paralelamente a outros livros do gosto do leitor, embora não sejam poucos os que defendem justamente o contrário.
Por fim, vale dizer que, embora seja uma narrativa de peso — até literalmente falando —, o tempo dedicado a ela certamente não será perdido.






