Por trás de cada órgão captado existe uma família enfrentando um dos momentos mais difíceis de sua vida. Do outro lado, existe alguém esperando a oportunidade de recomeçar. É nesse encontro entre dor, solidariedade e esperança que a Santa Casa de Araçatuba construiu um trabalho que acaba de receber reconhecimento estadual.
O hospital recebeu, nesta terça-feira (15), certificação especial da Central Estadual de Transplantes de São Paulo, órgão da Secretaria de Estado da Saúde, pelo desempenho da Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT) nas diferentes etapas do processo de doação: busca ativa, notificações e captação de órgãos e tecidos.
O reconhecimento coroa 11 anos de atuação de uma equipe que já realizou 462 protocolos de morte encefálica, concretizou 162 captações e possibilitou o transplante de 358 órgãos, além da doação de córneas, ossos e válvulas cardíacas.
Somados os diferentes tipos de doações e seus potenciais beneficiários, o trabalho desenvolvido em Araçatuba já alcançou mais de 600 pacientes.
Onze anos transformando despedidas em novos começos
A Santa Casa é referência em alta complexidade para 40 municípios da região e possui atuação nas áreas de neurologia clínica e neurocirurgia, especialidades diretamente relacionadas ao diagnóstico de morte encefálica.
O hospital registra média superior a 40 notificações anuais, considerando casos de morte encefálica e óbitos por parada cardiorrespiratória.
A certificação foi entregue pela enfermeira Regiane Sampaio, coordenadora da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital de Base de São José do Rio Preto.
O reconhecimento coincide com os 11 anos de credenciamento da Santa Casa junto ao Ministério da Saúde como núcleo de referência do SUS para coleta de órgãos e córneas.
Criado em 2015 como comissão interna, o serviço passou à condição de Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT) em dezembro de 2025, após reestruturação promovida pelo Ministério da Saúde.
Um trabalho silencioso nos bastidores
Antes que uma doação seja possível, existe um trabalho rigoroso e delicado.
A equipe realiza busca ativa por potenciais doadores, entre pacientes mantidos em ventilação mecânica e sem resposta neurológica, além de acompanhar os procedimentos necessários para diagnóstico da morte encefálica.
O protocolo inclui avaliação realizada por dois médicos diferentes e exame complementar para comprovar a ausência total de atividade cerebral. Na Santa Casa, a e-DOT recebe apoio de profissionais de diferentes áreas do corpo clínico.
Confirmado o diagnóstico, começa uma das etapas mais sensíveis: a conversa com a família.
Os profissionais acolhem os familiares, esclarecem a situação clínica e apresentam a possibilidade da doação. Quando há autorização, começa o trabalho para manutenção das condições do doador até a chegada das equipes responsáveis pela retirada dos órgãos.
162 doadores e 358 órgãos transplantados
Em 11 anos, foram realizados 462 protocolos de morte encefálica, dos quais 162 resultaram em captações efetivas.
Esses doadores possibilitaram a obtenção de 358 órgãos para transplante, sendo 238 rins, 90 fígados, 18 corações e seis pulmões, conforme balanço divulgado pelo hospital.
O médico Rafael Saad, coordenador da e-DOT, explica que a abertura de um protocolo não significa necessariamente que haverá doação.
“Existem casos em que o exame complementar aponta um fluxo mínimo de sangue intracraniano, não confirmando a morte encefálica. Também há contraindicações médicas — como parada cardíaca durante o protocolo, doenças oncológicas ou sepse — além da recusa familiar”, explica.
Famílias de Araçatuba dizem mais ‘sim’ à doação
Um dos números que mais chama a atenção no balanço é o índice de recusa familiar.
Segundo a Santa Casa, a taxa registrada nos últimos 11 anos é de 23%, enquanto a média nacional informada pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) é de 45%.
O resultado significa que, diante da possibilidade da doação, uma parcela expressiva das famílias atendidas pela equipe autoriza que os órgãos de seus parentes possam ajudar outras pessoas.
A dimensão dessa decisão se torna ainda maior diante do número de brasileiros esperando por transplantes. Conforme os dados apresentados pelo hospital, 38,5 mil pessoas aguardam por um rim no Brasil, sendo 19,7 mil somente no Estado de São Paulo. Entre os pacientes na fila estão 272 crianças.
Doação vai muito além dos órgãos
O trabalho desenvolvido na Santa Casa também envolve a captação de tecidos.
Ao longo desses 11 anos, nove doadores de ossos contribuíram para tratamentos de dezenas de pacientes em cirurgias ortopédicas complexas e casos envolvendo tumores.
Outros 31 doadores forneceram válvulas cardíacas, utilizadas principalmente na correção de disfunções graves e defeitos congênitos em crianças e adolescentes. Uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas.
A doação de córneas alcançou 204 doadores.
Captação de córneas dá salto
A evolução desse trabalho pode ser observada nos números da captação de córneas.
Entre 2015 e agosto de 2026, o número anual passou de nove para 85 doadores.
Segundo a instituição, o crescimento foi possível com a ampliação da equipe, permitindo a realização diária de busca ativa também entre pacientes que morreram em decorrência de parada cardiorrespiratória.
Nesses casos, a retirada do tecido ocular precisa ocorrer em até seis horas após a morte e depende, igualmente, da autorização da família.
O procedimento é realizado no próprio hospital por enfermeiros. Depois, as córneas são transportadas para o Banco de Olhos do Hospital de Base de São José do Rio Preto.
A Secretaria Municipal de Saúde de Araçatuba participa dessa rede disponibilizando veículos para que o material seja entregue dentro do prazo necessário.
Robson voltou a enxergar e hoje cuida de pacientes
A cerimônia de certificação também mostrou que as estatísticas têm rostos, famílias e histórias.
Uma delas é a do enfermeiro Robson Abdias de Macedo, de 51 anos.
Sua história com os transplantes começou há quase três décadas. Em 1997, devido ao ceratocone, doença degenerativa que altera a curvatura da córnea e compromete a visão, Robson precisou receber uma córnea no olho esquerdo.
Com o avanço da doença, o olho direito também foi afetado e, em 2018, ele passou por um segundo transplante.
Hoje, Robson trabalha justamente na equipe de enfermagem clínica da Santa Casa de Araçatuba. Segundo ele, os transplantes devolveram sua qualidade de vida e permitiram que continuasse trabalhando e convivendo normalmente em sociedade.
Um filho que queria salvar a mãe
Mas talvez nenhuma história apresentada durante o evento traduza tão profundamente a dimensão da doação quanto a de Graziele Furquim do Amaral de Farias.
Em 2018, aos 32 anos, uma grave crise de hipertensão provocou a perda da função dos rins. No mesmo ano, Graziele também perdeu a visão.
Mãe de Yasmim e Kauan, que tinham 4 e 16 anos na época, ela passou a depender de sessões de hemodiálise.
O filho mais velho acompanhava de perto o sofrimento da mãe. Kauan queria doar um de seus rins, mas, por ser menor de idade, não podia fazer a doação naquele momento. O jovem prometeu que faria isso quando tivesse idade suficiente.
A vida, porém, mudou os planos da família de maneira devastadora.
A maior prova de amor de Kauan
No primeiro dia de 2023, Kauan sofreu um acidente de moto. Ele teve traumatismo craniano e, dois dias depois, a morte encefálica foi confirmada.
Em meio à perda do filho, Graziele recebeu da equipe da Santa Casa a informação de que havia possibilidade de doação dos órgãos.
Ela autorizou.
A decisão respeitava o desejo que Kauan já havia manifestado em vida: ajudar outras pessoas e, especialmente, a própria mãe.
Pelas regras aplicáveis ao transplante entre familiares, Graziele pôde receber um dos rins do filho.
No dia 5 de janeiro de 2023, o desejo de Kauan se concretizou de uma maneira que nenhum dos dois poderia ter imaginado.
Graziele recebeu o rim do próprio filho.
O coração ficou com a saudade; o rim, com o legado do filho
Desde o transplante, Graziele não precisou mais fazer hemodiálise. Ela se recuperou e atualmente mantém acompanhamento semestral com a equipe do Hospital do Rim.
A perda do filho permanece como uma ferida que nenhum procedimento médico pode apagar. Mas, dentro dela, permanece também uma parte do jovem que queria ajudá-la a vencer a doença.
Kauan não salvou apenas a mãe. A autorização para doação permitiu que outros órgãos fossem destinados a pessoas que também esperavam por uma oportunidade de continuar vivendo.
A história de Graziele e Kauan sintetiza o significado do reconhecimento entregue à Santa Casa de Araçatuba: por trás das 162 captações, dos 358 órgãos transplantados e das centenas de tecidos doados, existem famílias que, no instante da despedida, aceitaram transformar a própria dor em esperança para desconhecidos.
Onze anos depois do início desse trabalho, a certificação estadual reconhece uma estrutura hospitalar e seus profissionais. Mas os números construídos pela e-DOT também contam outra história: a de centenas de pessoas que puderam enxergar novamente, abandonar a hemodiálise, receber um novo órgão e ganhar mais tempo de vida graças ao “sim” de uma família em seu momento mais difícil.






