Terça-feira, 22 de setembro de 2026
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Louríssima, olhos azuis

Hélio Consolaro* s vezes, os fatos mais surpreendentes acontecem debaixo do nariz do cronista. Aí vou remoendo, interpretando para ver.

Louríssima, olhos azuis

Hélio Consolaro*

s vezes, os fatos mais surpreendentes acontecem debaixo do nariz do cronista. Aí vou remoendo, interpretando para ver se no subtexto do fato há lições. Se houver o duplo sentido, vale a pena escrever uma crônica. Para o cronista, uma briga não é apenas uma briga.

Eu estava numa casa noturna de luxo em Araçatuba (não frequento apenas o Belisco), quando ouvi as mulheres da mesa elogiarem um penteado afro de uma das garçonetes. Aqueles arranjos cheios de tranças. Realmente, era uma elegância de africanidade.

De repente, minha colega loiríssima e de olhos azuis, aquela que não devia fazer nenhuma pergunta porque nunca ia usar tal penteado:

– Isso pesa muito?

– E o seu cabelo pesa? – devolveu a pergunta em forma de pergunta cortante.

Tais perguntas têm duas interpretações.  Sentido subentendido. “Isso pesa muito”: ser negra é difícil? E você sendo branca, loira, o cabelo não deve pesar nada. O branco é o que manda: “E o seu cabelo pesa?”.

Sentido literal, ao pé da letra: “Isso pesa muito?”. Talvez a pergunta se devia a querer saber apenas uma informação, a loira de olhos azuis quisesse presentear uma amiga afrodescendente. A garçonete não entende de como uma branquela quisesse tal informação, já que não usaria nunca o arranjo afro em sua cabeça. Foi mesmo bullying provocado por uma pergunta malfeita.

Acredito que o motivo da briga foi o racismo de ambos os lados (ação e reação). Se não tivessem preguiça de conversar, teria sido um grande papo. O conflito não virou um bafão, mas entrou o dono do estabelecimento, foram lá para o escritório. Felizmente, houve pedido de desculpas e não deu polícia.

Aos trancos e barrancos, o Brasil, o país da miscigenação, está encontrando o caminho da convivência na diversidade. Sai até pescoção, mas a realidade está melhorando.

OS LENHADORES DE ARAÇATUBA

Há pessoas entre nós em Araçatuba que devem ser descendente dos pioneiros na derrubada das florestas (Mata Atlântica) quando matar índio e derrubar mata eram boas ações. No meu quarteirão, morreu Dona Ilma, uma das mais antigas moradoras. Sua casa era toda enfeitada, florida. Os filhos venderam-na, os novos moradores não deixou nem gramíneas. A casa está exposta ao sol. O casal de moradores atuais, idosos, já foi questionado de todos os jeitos, mas a casa é deles, portanto podem fazer o que quiser, até prejudicar a coletividade. É o extremo direito da propriedade privada.

Esta notícia da matança de árvores recém-plantadas num conjunto habitacional tem o mesmo espírito. Com certeza, nem sabem por que nasceram.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis e Itaperuna-RJ

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