Terça-feira, 22 de setembro de 2026
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Memórias

ADELMO PINHO Ela acordava pela manhã e se olhava no espelho, fitando as marcas que a longevidade lhe reservou. Gostava,.

Memórias

ADELMO PINHO

Ela acordava pela manhã e se olhava no espelho, fitando as marcas que a longevidade lhe reservou. Gostava, porém, do natural, de ser o que é; por isso, não pintava os cabelos brancos nem usava maquiagem.

A fotografia antiga pendurada no quadro da parede do quarto era prova inequívoca da efemeridade da juventude.

A rotina era levantar-se da cama, arrumar o quarto e preparar o café, como fazia há anos. O bule, já desgastado, ocupava lugar no centro da mesa da cozinha sobre uma bela toalha rosa de renda. O pão caseiro, quente e fresco, assado em fogão a lenha, fazia parte da refeição matinal, uma receita da família.

Era um ritual… Ao primeiro gole do café coado e do seu aroma vinham-lhe recordações. Lembrava do marido que falecera havia anos, com o qual manteve longo relacionamento. O casamento, em verdade, não fora perfeito — como nenhum é —, mas a saudade permanecia, pois “ninguém é uma ilha” e “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”.

Os filhos, aos poucos, “deixaram o ninho” para assumirem suas vidas; é o ciclo da existência! Filhos são criados para o mundo e não exatamente para os pais. Com os filhos aprendemos a ser menos egoístas; menos, explique-se, porque o ser humano é egoísta por natureza.

Numa mesinha da pequena sala ficava a Bíblia, escorada num suporte de alumínio, que ela lia todos os dias à noite, antes de dormir, de forma aleatória. Ora lia o Antigo Testamento, ora o Novo. Já havia lido o livro sagrado inúmeras vezes; todavia, sempre há o que aprender e interpretar sobre ele, pensava, já que o Divino é sempre um mistério e a Bíblia foi escrita por “muitas mãos”, em épocas diferentes.

Findo o café, ela se sentava na cadeira de balanço que fora de sua avó, feita de madeira avermelhada e grossa, com uma rede cinza de nylon na parte do encosto. Como sempre, posicionava-se entre a sala e a cozinha e passava a balançar suavemente, como se navegasse num oceano em busca de memórias: recordar é uma forma de viver ou mesmo de sobre(viver).

Concomitantemente, com as mãos finas e os dedos longos, marcados pelas manchas adquiridas com o tempo, passava a tecer sua mortalha. Era de linho, com fios vermelhos e brancos. A indumentária estava para ser finalizada com o capricho que lhe era peculiar.

“Todos morreremos um dia”, pensava.

Confeccionar a principal vestimenta de sua partida lhe era importante, sendo um costume familiar. Na tradição de sua família, de religião católica, era comum o uso de mortalhas que imitavam trajes religiosos de santos.

A finitude não lhe era inimiga ou temida. A vida, apesar de finita, pode ser boa e valer a pena, se bem vivida!

Ela aprendera também, com o tempo, que solitude é diferente de solidão, passando a viver bem consigo mesma, de modo consciente e tranquilo. Estar só era a forma de se encontrar, de buscar o seu interior, onde estavam sua verdadeira essência e o Divino, habitando o mesmo espaço, sem conflito. O conflito, pensava, estava no mundo exterior, fruto da maldade e do egoísmo humano.

O apego às coisas e às pessoas, assim, não mais lhe pertencia.

Naquele dia, em especial, via-se pela vidraça da janela da cozinha o nascer do sol e um beija-flor a degustar o néctar de uma petúnia no jardim, como faz um enófilo com o vinho. Ela, com olhar sereno e sábio, apreciou a beleza do pássaro e pensou:

— A natureza é divina e singular; preservá-la é eternizar o ser humano e respeitar o Criador!

Em seguida, passou a ouvir o canto do galo que anunciava o raiar do dia, com a precisão de um relógio suíço.

Depois de certo tempo, sentiu um estado de paz inusitado. Uma paz, insista-se, para que o leitor compreenda, de alma.

Sentiu também a presença de alguém familiar, mas nada viu.

Nesse instante, uma luz violeta cruzou a vidraça da janela e a envolveu, levitando-a. Seria um sonho, como o de Ícaro?

Em seguida, ainda flutuando como uma libélula, olhou para baixo e se viu sentada na mesma cadeira, imóvel, com os olhos cerrados e a face tranquila.

Via-se também que o bule de café sobre a mesa da cozinha ainda soltava parca fumaça e, sobre o seu colo, agora finalizada, jazia a mortalha.

Adelmo Pinho é cronista e escritor. Membro das cademias de letras de Araçatuba e Penápolis

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