Evandro Everson dos Santos
O título sintetiza a entrevista que o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, deu ao Valor Econômico em 22 de maio. Perguntado sobre a crise na pré-candidatura do Senador Flávio Bolsonaro — abalada pelo escândalo do Banco Master — Valdemar evitou decidir pela substituição. Reconheceu o erro de o pré-candidato manter vínculos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e anunciou que a campanha pretende contrapô-lo às “fraudes bilionárias do INSS”, imputando a responsabilidade ao Presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva.
Acuados e com o seu candidato perdendo tração, a frase “o povo vai ter que decidir: se tem defeito, o que é mais grave, o que é pior” ao comparar os escândalos Banco Master, em que Flávio Bolsonaro se encontra no olho do furacão com o da fraude do INSS, resume bem a estratégia: transformar disputas políticas em uma competição de culpas.
Em vez de confrontar propostas, projetos e compromissos eleitorais, reduz-se o debate à comparação de escândalos e ao julgamento moral dos atores. É uma política do sujo falando do mal lavado, em que quem aponta o defeito do outro procura justificar o próprio.
Isso não é apenas desalentador; é perigoso. Democracia saudável exige escolhas informadas, feitas sobre alternativas programáticas e visões de País. Quando o foco se desloca para “quem erra mais” ou “quem tem o defeito mais grave”, a política vira promessas vazias — atiça ressentimento, polariza e empobrece o repertório público. O eleitor fica refém da tabela de culpas e de temas importantes que precisam ser debatidos, como educação, saúde, segurança pública, emprego, competitividade e segurança jurídica, perdem centralidade.
Voltamos, assim, a uma prática que lembra tempos recentes em que partidos e líderes preferiam explorar diferenças pessoais e escândalos em vez de disputar projetos. O resultado é previsível: erosão da confiança nas instituições e apatia cívica. Vale lembrar que responsabilizar adversários por crimes sem provas robustas ou transformar investigações em peças de campanha também corrói o Estado de Direito.
O desafio, portanto, é recuperar o debate público: exigir clareza programática, prévias internas decentes, responsabilidade sobre alianças e transparência financeira das campanhas. O eleitor não deve ser reduzido à tarefa de escolher “o mal menor” diante de um cardápio de defeitos. Cabe aos partidos e à sociedade elevar a eleição à concorrência de propostas — e ao jornalismo, fiscalizar com rigor e independência, sem alimentar apenas a narrativa do choque moral.
No limite, restaurar a política como disputa de alternativas é condição para que a escolha popular não seja só um julgamento de caráter, mas uma decisão sobre futuro.






