EVANDRO EVERSON DOS SANTOS
Há poucos dias li o livro “O século dos imbecis”, do escritor Valter Hugo Mãe, recentemente lançado no Brasil. Um romance narrado com muita ironia, crítica social e bem-humorado. Confesso que, além da escolha do título, em alguns momentos da narrativa o autor me fez pensar que se inspirou no tempo atual da política brasileira.
Estamos próximos das eleições e, em vez de uma disputa de ideias, assistimos à consolidação de uma campanha em que a eleição presidencial se reduz à administração do medo, à exploração de escândalos e à fabricação do “menos pior”.
A campanha dos candidatos à Presidência da República mais bem colocados nas pesquisas de intenção de votos, Lula e Flávio Bolsonaro, tem rebaixado o debate público ao nível da contabilidade moral do escândalo e da dissimulação escancarada.
De um lado, o caso do financiamento do filme Dark Horse, associado ao banqueiro Daniel Vorcaro, surge como mais um capítulo da promiscuidade entre poder, dinheiro e influência. De outro, reaparecem as acusações em torno de Lulinha e de uma lobista, com o suposto tráfico de influência sendo usado como munição política, como se o país fosse administrado por uma comissão permanente de malfeitores.
O resultado é grotesco: os protagonistas não disputam ideias, e sim qual deles oferece a degradação mais palatável. A campanha presidencial virou um lixão de vaidades, suspeitas e ressentimentos, onde a disputa já não é entre projetos de país, mas entre narrativas prontas para consumo de eleitores exaustos.
“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” (Eclesiastes 1:2)
Enquanto isso, o que realmente importa é varrido para debaixo do tapete. Não se fala seriamente de ciência, educação, produtividade, reindustrialização, infraestrutura, segurança pública, transição energética ou responsabilidade fiscal com justiça social.
A campanha parece ter escolhido a pior forma de inteligência: aquela que sabe o nome dos problemas, mas prefere explorar a ignorância alheia para lucrar eleitoralmente com a decadência nacional.
O eleitor é tratado como torcedor de arquibancada, não como cidadão. Não se pede que ele compare programas, mas que escolha o criminoso menos inconveniente, o estelionatário mais bem embalado, o escândalo com melhor assessoria de imprensa.
A política brasileira virou isso: uma feira de horrores em que cada grupo tenta convencer o país de que seu desastre é mais administrável do que o do adversário.
Em O século dos imbecis, a inteligência não desaparece por falta de acesso à informação, mas pela escolha coletiva de desprezar o pensamento. A crítica serve ao presente: um país pode conhecer seus problemas e, ainda assim, preferir a encenação à solução.
Pode dispor de dados, especialistas e diagnósticos, mas continua prisioneiro da retórica que transforma a política em ringue e a cidadania em torcida organizada.
Enfim, o drama brasileiro não é apenas a polarização. É a pobreza do horizonte.
Evandro Everson dos Santos é policial militar aposentado e economista.






