Terça-feira, 22 de setembro de 2026
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Podas inadequadas e falta de manejo aumentam risco de queda de árvores durante tempestades

Especialistas do Crea-SP alertam que ventos e chuvas intensas geralmente funcionam como gatilho para problemas estruturais já existentes; poda drástica também pode deixar árvores mais vulneráveis

Queda de árvore no parque infantil - Araraquara

Muitas árvores caem durante tempestades e oferecem riscos - crédito - Antônio Crispim

A ocorrência cada vez mais frequente de tempestades, vendavais e outros fenômenos climáticos severos tem colocado a arborização urbana no centro das preocupações das cidades. Árvores de grande porte derrubadas sobre veículos, imóveis e redes elétricas representam riscos à população, mas especialistas alertam que, na maioria dos casos, a força do vento não é a única responsável pelas quedas.

Segundo engenheiros ligados ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), árvores saudáveis dificilmente tombam apenas em razão do vento. O problema costuma estar associado a lesões, defeitos estruturais, podas inadequadas, raízes comprometidas e ausência de manejo preventivo.

A avaliação é de que a arborização urbana precisa ser tratada de forma técnica e permanente, desde a escolha das espécies e o plantio até as podas, inspeções e acompanhamento das condições das árvores.

Ambiente urbano aumenta o estresse das árvores

Ao contrário do que ocorre em uma floresta, onde as árvores crescem próximas umas das outras e encontram maior proteção contra as rajadas, exemplares isolados nas cidades enfrentam condições adversas.

Asfalto, compactação do solo, pouco espaço para desenvolvimento das raízes e intervenções sucessivas podem comprometer a estrutura das plantas ao longo dos anos.

Especialistas apontam que rajadas entre 50 km/h e 60 km/h já podem exercer força considerável sobre árvores urbanas fragilizadas. Em tempestades mais severas ou ciclones, com ventos entre 80 km/h e 100 km/h, defeitos estruturais preexistentes ficam ainda mais expostos.

Chuva pode ser gatilho para queda

A engenheira florestal Evandra Bussolo Barbin, presidente da Associação Paulista de Engenheiros Florestais (APAEF) e representante do Crea-SP na Coordenadoria Nacional de Câmaras Especializadas de Engenharia Florestal do Confea, explica que o excesso de água pode agravar problemas existentes.

Segundo ela, o encharcamento prolongado reduz a capacidade de ancoragem das raízes.

“No entanto, é fundamental compreender que uma árvore verdadeiramente saudável dificilmente tombará apenas pela força do vento. Na vasta maioria dos casos, existe uma lesão ou um defeito estrutural preexistente que é agravado no momento da tempestade”, afirma.

Por isso, identificar antecipadamente árvores comprometidas é apontado como uma das medidas mais eficientes para reduzir acidentes durante períodos de chuvas intensas.

Sinais podem indicar que árvore está comprometida

Algumas características podem servir de alerta para a necessidade de uma avaliação especializada.

Entre elas estão inclinação recente ou acentuada do tronco, rachaduras e fendas profundas, bifurcações em formato de “V”, copa excessivamente pesada de um dos lados e alterações no solo próximo à base.

Raízes expostas ou rompidas por obras também precisam de atenção.

Há ainda sinais relacionados à condição sanitária da árvore, como grandes cavidades no tronco, galhos secos de maior porte e presença de fungos na base, que pode indicar processo de apodrecimento interno da madeira.

De acordo com os especialistas, o diagnóstico definitivo deve ser realizado por engenheiros agrônomos ou florestais registrados no Crea-SP. Além da inspeção visual, podem ser utilizados recursos como tomografia do tronco e ultrassom arbóreo.

Poda errada pode provocar problema anos depois

Um dos principais pontos de atenção é a poda.

O engenheiro agrônomo José Walter Figueiredo, vice-presidente da Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto (AEAARP) e integrante do Comitê Técnico de Normatização e Manejo Arbóreo do Crea-SP, alerta que a poda não deve ser encarada como simples retirada de galhos.

Uma intervenção mal executada pode provocar danos que somente se tornarão perceptíveis anos depois.

Segundo Figueiredo, um problema recorrente ocorre quando o galho é cortado de maneira inadequada e deixa um pedaço de tronco, conhecido como “cabide”.

“O toco deixado morre, apodrece devagar e atrai cupins, criando um buraco que avança para o interior do tronco. É um processo silencioso que leva de 5 a 20 anos, deixando a árvore completamente oca e vulnerável sem que o morador perceba”, explica.

A orientação é realizar a poda no ponto anatômico correto, permitindo que a planta consiga cicatrizar adequadamente.

Poda drástica pode aumentar risco

A prática conhecida como “poda drástica”, caracterizada pelo rebaixamento severo da copa, também é criticada pelos especialistas.

Embora muitas vezes seja realizada com a justificativa de reduzir o risco de acidentes, Evandra explica que o procedimento pode produzir justamente o efeito contrário.

A retirada excessiva da galhada reduz a capacidade fotossintética e provoca desequilíbrio biomecânico. Além disso, as novas brotações surgidas posteriormente podem apresentar fixação mais frágil e, consequentemente, maior possibilidade de quebra durante tempestades.

“Mais do que podar muito, o segredo é podar com técnica e frequência adequada. A manutenção preventiva sai mais barata do que remediar os danos materiais e humanos de uma queda”, afirma a engenheira florestal.

Nem toda árvore atingida precisa ser removida

Depois de vendavais, a remoção completa da árvore também não deve ser uma decisão automática, segundo os especialistas, exceto quando houver risco iminente e irreparável.

Uma avaliação técnica pode verificar a integridade das raízes, a capacidade de regeneração da espécie e os riscos existentes no entorno.

Árvores que sofreram perda parcial de galhos ou apresentam pequena inclinação podem, dependendo das condições, ser recuperadas por meio de poda de reequilíbrio ou manejo do solo.

A estratégia busca conciliar a preservação ambiental com a segurança da população.

Planejamento começa na escolha da espécie

Com eventos climáticos extremos cada vez mais presentes na rotina urbana, especialistas defendem uma mudança na forma como as cidades planejam sua arborização.

Para novos plantios, Figueiredo recomenda que a escolha não considere apenas aspectos estéticos ou econômicos. É necessário avaliar a adaptação da espécie às condições do local, com atenção especial às árvores dos biomas regionais.

O planejamento também precisa considerar o espaço disponível para o crescimento das raízes e da copa, além da convivência com calçadas, imóveis, ruas e redes de infraestrutura.

Arborização é parte da solução

Para Evandra, enfrentar os riscos provocados pelas mudanças climáticas não significa eliminar árvores das cidades.

A solução está no planejamento e no acompanhamento técnico permanente.

“Não existe uma espécie 100% à prova de fenômenos climáticos extremos, mas sim o plantio correto, no lugar correto, com espaço adequado para o desenvolvimento das raízes e acompanhamento profissional contínuo”, afirma.

Segundo a engenheira florestal, quando bem planejada e manejada, a arborização urbana deixa de ser vista como problema e passa a cumprir papel importante na construção de cidades mais sustentáveis e resilientes aos eventos climáticos extremos.

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