Terça-feira, 22 de setembro de 2026
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Polícia Civil intensifica cerco à receptação com quatro operações na região de Araçatuba

Em menos de duas semanas, ações miraram ferros-velhos, desmanches, receptadores de veículos e até possível destino de animais furtados; operações reuniram Polícia Civil, guardas municipais, Detran, Polícia Ambiental, prefeituras e Vigilância Sanitária

Operação açougues

Em um determinado estabelecimento, foram apreendidos 450 quilos de carne e produtos cárneos. Crédito: Divulgação Polícia Civil

A Polícia Civil intensificou nas últimas semanas uma estratégia de combate aos crimes patrimoniais na região de Araçatuba mirando não apenas quem furta, mas também um dos elos considerados fundamentais para a manutenção desse tipo de crime: a receptação e os possíveis canais de comercialização dos produtos furtados.

Em um intervalo de menos de duas semanas, quatro grandes ações alcançaram ferros-velhos e recicladoras de metais, estabelecimentos ligados ao comércio e desmonte de veículos, possíveis receptadores de caminhonetes e até estabelecimentos fiscalizados no contexto de investigações sobre furtos de gado. Em um destes estabelecimentos foram constatadas várias irregularidades e apreendidos aproximadamente 450 quilos de carnes e produtos cárneos.

As ações ocorreram entre os dias 4 e 17 de setembro e tiveram como ponto comum a tentativa de identificar para onde vão os produtos depois dos furtos — sejam fios de cobre, peças e veículos ou produtos de origem animal.

Outro aspecto que chama a atenção é a atuação integrada. Dependendo da operação, a Polícia Civil contou com apoio de guardas municipais, Detran-SP, Polícia Militar Ambiental, prefeituras, Vigilância Sanitária e médicos-veterinários.

Cuprum começou ofensiva contra receptação de metais

A sequência teve um de seus principais capítulos em 4 de setembro, com a Operação Cuprum, coordenada pela Delegacia Seccional e pela DEIC de Araçatuba.

O alvo eram estabelecimentos destinados à reciclagem de materiais metálicos e ferros-velhos em Araçatuba, Birigui e Penápolis. O objetivo declarado era identificar possíveis infrações e combater a aquisição irregular e a receptação de fios de cobre e outros materiais de origem ilícita.

Foram vistoriados 50 estabelecimentos. A operação terminou com quatro prisões em flagrante, duas em Araçatuba e duas em Penápolis.

O volume de material recolhido chamou a atenção: 1.575 quilos de fios de cobre, além de 34 baterias automotivas, um aparelho celular, uma tampa de bueiro da Sabesp e uma cadeira de rodas ortopédica.

Mais de 100 policiais civis participaram da operação, além de equipes da Guarda Municipal e fiscais.

A própria Polícia Civil definiu a ação como parte de uma estratégia para desarticular as cadeias de comercialização de produtos provenientes de ilícitos e, dessa forma, tentar reduzir também os furtos de cabos e outros metais.

Rota Noturna mirou destino de caminhonetes furtadas

Seis dias depois, em 10 de setembro, o foco passou dos metais para os veículos.

A Operação Rota Noturna, conduzida pela Delegacia de Polícia de General Salgado, vinculada à Delegacia Seccional de Araçatuba e ao Deinter-10, avançou sobre uma investigação relacionada a furtos de caminhonetes e à possível destinação dos veículos e componentes automotivos.

Foram cumpridos mandados em diferentes endereços relacionados aos investigados, incluindo estabelecimentos que poderiam ter ligação com comércio ou desmonte de veículos.

A ação mobilizou 45 policiais civis para o cumprimento de 12 mandados de busca e apreensão e dois de prisão temporária, com diligências que alcançaram também outras regiões do Estado.

Durante os trabalhos, a polícia apreendeu veículos, motores, componentes automotivos, ferramentas, celulares e documentos. Em um dos estabelecimentos, segundo a Polícia Civil, foram encontrados dois veículos e um motor com sinais identificadores adulterados. O responsável foi preso em flagrante por suspeita de adulteração de sinal identificador de veículo e receptação.

A investigação busca justamente esclarecer a possível existência de uma estrutura para receber, ocultar, desmontar e posteriormente comercializar veículos e peças de origem ilícita.

Homem de Lata mobilizou 180 agentes

Cinco dias depois, em 15 de setembro, uma força-tarefa ainda maior voltou aos estabelecimentos ligados ao setor automotivo.

Batizada de Operação Homem de Lata – Fase 01, a ação fiscalizou 27 locais em Araçatuba e Birigui. O objetivo, segundo o documento oficial, era localizar peças e veículos furtados e atingir a cadeia que começa no furto ou roubo e chega ao receptador que adquire e comercializa o produto de origem ilícita.

A mobilização reuniu 180 agentes públicos e 27 viaturas. Participaram policiais civis, guardas municipais, fiscais do Detran, policiais militares ambientais e fiscais das prefeituras de Araçatuba e Birigui.

O resultado foi a interdição de oito estabelecimentos, sendo cinco em Araçatuba e três em Birigui. Também houve uma prisão em flagrante por adulteração de sinal identificador de veículo automotor.

Três motocicletas em situação irregular foram apreendidas, assim como um motor com restrição. As fiscalizações municipais ainda resultaram em notificações e autuação administrativa.

O relatório da Polícia Civil deixa claro que o propósito da operação vai além de localizar um veículo específico: a intenção é combater “toda a cadeia criminosa”, desde o furto ou roubo até o receptador final.

Cerco chegou também à possível destinação de gado furtado

Dois dias depois, em 17 de setembro, outra fiscalização mostrou que a mesma lógica investigativa pode alcançar um tipo bastante diferente de patrimônio: animais.

Em Guararapes, a Polícia Civil realizou uma ação conjunta com a Vigilância Sanitária e médicos-veterinários em estabelecimentos comerciais. Aproximadamente 450 quilos de carnes e produtos cárneos em situação irregular foram apreendidos em um determinado estabelecimento, onde foram constatadas várias outras irregularidades

A fiscalização verificou procedência, armazenamento, conservação, validade e eventual existência de carnes sem comprovação de origem lícita.

No local foram encontradas carnes fracionadas sem a correspondente comprovação fiscal de origem, mercadorias com prazo de validade expirado e outros produtos considerados impróprios para o consumo pelos profissionais responsáveis pela fiscalização sanitária.

No decorrer das diligências, os agentes também localizaram produto cárneo apresentando características compatíveis, em princípio, com carne proveniente de animal silvestre. Diante da impossibilidade de determinação segura de sua natureza mediante simples exame visual, o material foi regularmente apreendido e encaminhado para exame pericial, cujo resultado deverá esclarecer sua origem e natureza.

Segundo a Polícia Civil, a ação também estava relacionada às investigações sobre furtos de gado — o chamado abigeato — registrados recentemente no município. Os investigadores buscam identificar não apenas os responsáveis pelos furtos, mas também esclarecer qual teria sido a destinação dos animais.

Não há, nas informações divulgadas até agora, afirmação de que as carnes apreendidas sejam provenientes dos animais furtados. Essa eventual relação ainda depende da investigação.

Estratégia tenta atingir quem alimenta mercado ilegal

Apesar de terem alvos diferentes, as quatro ações revelam um ponto em comum.

No caso do cobre, a polícia fiscalizou quem compra e comercializa materiais metálicos. Nas caminhonetes, avançou sobre locais que poderiam receber, ocultar ou desmontar veículos. Na Operação Homem de Lata, a fiscalização alcançou estabelecimentos ligados diretamente ao comércio e desmonte de veículos e peças. Já em Guararapes, os trabalhos procuram esclarecer também o possível destino de animais furtados.

A lógica é atingir a outra ponta dos crimes patrimoniais: o mercado capaz de absorver aquilo que é furtado.

A própria Polícia Civil registra, no relatório da Operação Cuprum, que as ações integram uma estratégia de enfrentamento aos crimes patrimoniais por meio da desarticulação das cadeias de comercialização de produtos provenientes de ilícitos.

Integração amplia poder de fiscalização

As operações também mostram uma característica que vem se repetindo: a integração da investigação criminal com a fiscalização administrativa.

Na Homem de Lata, por exemplo, trabalharam conjuntamente Polícia Civil, DEIC, Guardas Municipais de Araçatuba e Birigui, Detran-SP, Polícia Militar Ambiental e fiscais das duas prefeituras.

Isso permite que uma mesma vistoria verifique situações diferentes. Mesmo quando não é encontrado material que resulte em prisão por receptação, o estabelecimento pode apresentar irregularidades de trânsito, ambientais, administrativas ou relacionadas ao funcionamento.

O resultado da Homem de Lata ilustra esse alcance: além da ocorrência criminal, oito estabelecimentos foram interditados, enquanto as prefeituras emitiram notificações e autuação.

Em Guararapes, a presença da Vigilância Sanitária e de médicos-veterinários permitiu que a fiscalização também verificasse as condições sanitárias e a procedência dos produtos cárneos.

Do furto ao comprador final

A sequência de operações indica uma atuação voltada a percorrer o caminho do produto furtado depois que ele desaparece das mãos da vítima.

No caso de fios e cabos, a pergunta é quem compra o metal. Nos veículos, quem recebe, adultera, desmonta ou comercializa as peças. No furto de gado, para onde são levados os animais.

É justamente nesse ponto que receptação, comércio irregular e fiscalização de estabelecimentos passam a ocupar papel central nas investigações.

Em menos de duas semanas, Cuprum, Rota Noturna, Homem de Lata e a ação em Guararapes colocaram diferentes setores sob fiscalização e mostraram uma estratégia comum: tentar interromper não apenas o furto, mas também o mercado que pode dar destino e valor econômico ao produto do crime.

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