Evandro Everson dos Santos
Há mais de 510 dias, desde a posse do atual prefeito, assistimos a um apagão de gestão. Passados os cem primeiros dias — prazo simbólico em que se espera que um gestor demonstre liderança e capacidade administrativa — tornou-se evidente o fracasso em cumprir promessas de campanha e em manter obras e serviços herdados da gestão anterior.
A distância entre o poder público e a realidade das famílias da cidade só aumenta. Na saúde; eixo central das promessas eleitorais, falta medicamentos básicos e insumos essenciais. Consulta com especialistas, exames — tanto simples quanto de alta complexidade — e agendamento de cirurgias eletivas viraram tarefa hercúlea. Pacientes encontram dificuldades e respostas burocráticas onde deveria haver soluções.
Nas periferias, o quadro é igualmente grave: bairros sem infraestrutura adequada, sem asfalto, rede de esgoto precária e com água de qualidade duvidosa. Obras já licitadas permanecem paralisadas; avenidas importantes, de grande fluxo, estão interditadas há meses. Essas interrupções não afetam apenas o trânsito: comprometem a economia local, a mobilidade urbana e a dignidade da população.
O que agrava o cenário é a apatia das instituições responsáveis por fiscalizar e decidir. O Poder Legislativo, que se proclama independente e harmônico, tem dado sinais de que essa harmonia atende mais a interesses pessoais ou corporativos do que ao interesse público.
Quando convocados a decisões que impactam diretamente a vida dos cidadãos, muitos vereadores parecem preferir a espetacularização — discursos inflamados, contorcionismos retóricos e justificativas frágeis — em vez de um juízo técnico e corajoso.
Exemplo recente e sintomático ocorreu na 18ª sessão ordinária da Câmara Municipal. A pauta mais aguardada pela população era a abertura de uma Comissão Processante (CP) contra o prefeito.
Havia um relatório aprovado por unanimidade em sessão anterior, elaborado por comissão de vereadores e baseado em provas e depoimentos que apontavam o uso de guardas municipais como seguranças pessoais e motoristas do chefe do Executivo.
Mesmo assim, o pedido de abertura da CP foi rejeitado por 11 votos contra e 4 a favor. Em vez de assumir a responsabilidade política, os vereadores lavaram as mãos — transferiram o caso ao Ministério Público e se esquivaram do escrutínio que lhes cabe.
Esse comportamento revela uma síndrome de Pôncio Pilatos: o ato simbólico de lavar as mãos, recusar-se a decidir e delegar à instância seguinte aquilo que é competência própria. Ao mesmo tempo, a teatralidade de discursos mambembes transforma o plenário em palco de exibições vazias, mais preocupado com imagem do que com conteúdo.
Enquanto isso, a gestão pública segue inerte. Sem políticas claras em saúde, educação e infraestrutura, a sensação é de terra arrasada. A população, que paga impostos e espera representação, exige ser ouvida e defendida.
Se as instituições que deveriam proteger o interesse coletivo se omitem, a indignação cresce e a esperança esfria. É hora de os vereadores reencontrarem sua missão — fiscalizar, deliberar com responsabilidade e priorizar o bem comum antes que a descrença vire apatia irreversível.






