Líderes empresariais revelam preocupação e entendem que foi um ato de cunho político e não econômico
DA REDAÇÃO – BRASÍLIA
O tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump sobre produtos vendidos pelo Brasil aos EUA e o teor da carta encaminhada ao governo brasileiro, referindo-se ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao Supremo Tribunal Federal, causaram perplexidade e surpresa em diversos setores da economia. A versão de que oBrasil prejudica a economia americana não se sustenta, já que o saldo da balança comercial é favorável aos Estados Unidos. Por isso, muitos entenderam que foi uma manobra política. As reações foram imediatas.
Nesta quinta-feira pela manhá, o governo brasileiro emitiu a seguinte nota?
“Nota de Imprensa
Tendo em vista a manifestação pública do presidente norte-americano Donald Trump apresentada em uma rede social, na tarde desta quarta-feira (9), é importante ressaltar:
O Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém.
O processo judicial contra aqueles que planejaram o golpe de estado é de competência apenas da Justiça Brasileira e, portanto, não está sujeito a nenhum tipo de ingerência ou ameaça de que fira a independência das instituições nacionais.
No contexto das plataformas digitais, a sociedade brasileira rejeita conteúdos de ódio, racismo, pornografia infantil, golpes, fraudes, discursos contra os direitos humanos e a liberdade democrática.
No Brasil, a liberdade de expressão não se confunde com agressão ou práticas violentas. Para operar em nosso país, todas as empresas nacionais e estrangeiras estão sujeitas à legislação brasileira.
É falsa a informação, no caso da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, sobre o alegado déficit norte-americano. As estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos comprovaram um superávit desse país no comércio de bens e serviços como o Brasil da ordem de 410 bilhões de dólares ao longo dos últimos 15 anos.
Neste sentido, qualquer medida de elevação de tarifas de forma unilateral será respondida à luz da Lei Brasileira de Reciprocidade Econômica.
A soberania, o respeito e a defesa intransigente dos interesses do povo brasileiro são os valores que orientam a nossa relação com o mundo.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Presidente da República”
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, entidade que representa os interesses das indústrias paulistas e uma das. mais. importantes entidades re[resentativas de classe do país, também se maanifestou:
“O Brasil, assim como os Estados Unidos, é uma nação soberana em que prevalece o estado democrático de direito assentado sobre um sistema de tripartição de poderes independentes (o Executivo, o Legislativo e o Judiciário) e, vale enfatizar, muito inspirado nos princípios instituídos pelos Pais Fundadores da América.
Pode parecer estranho essa afirmação, mas, quando razões não econômicas são usadas para justificar a quebra de todo o regramento comercial e do direito internacional, é importante reafirmar esses princípios.
Apesar do impacto negativo para a indústria brasileira do aumento das tarifas unilateralmente pelos EUA, entendemos que a soberania nacional é inegociável. Este é um princípio balizador.
Negociar com serenidade, a partir de fatos e estatísticas verdadeiras, é de interesse comum às empresas brasileiras e americanas, que sempre foram bem recebidas ao Brasil. A livre atuação das empresas americanas, como de qualquer empresa nacional ou de outro país, deverá ser assegurada nos termos da legislação brasileira.
É importante lembrar que os EUA têm relevante superávit com o Brasil não só na balança comercial, mas, ainda maior, também na balança de serviços. Desconhecer mais de 200 anos de excelentes relações internacionais e comerciais não atende a nenhum dos dois países.
São muitas as oportunidades de mais e maiores negócios entre Brasil e EUA em benefício de nossas leis. Da exploração de terras raras ao desenvolvimento de padrões mundiais para os biocombustíveis, inclusive o SAF; do desenvolvimento de medicamentos à integração energética (como etanol e gás natural); dos investimentos conjuntos para a digitalização da economia ao uso da abundante geração de energia elétrica de fontes renováveis e baratos para o processamento de dados de ambos os países são apenas algumas das oportunidades em que empresas e governos deveriam focar.
Esperamos que a diplomacia e as negociações equilibradas prevaleçam, o despeito de ideologias e preferências pessoais, e que o bom senso volte a nortear a relação entre essas duas grandes nações soberanas.
Josué Gomes da Silva
Presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP”
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) também se posicionou em defesa do setor.
“A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) , entidade que representa o setor terciário do Estado mais rico do Brasil, expressa profunda apreensão diante da decisão anunciada pelo governo dos Estados Unidos de importar uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras . A medida que os princípios elementares do comércio internacional e penalizam, de forma injusta, empresas comprometidas com a produção, a geração de empregos e o crescimento econômico do País . O setor privado brasileiro, responsável por sustentar a atividade econômica e criar milhões de postos de trabalho, não pode ser transformado em instrumento de retaliação política ou alvo de debates ideológicos (de ambos os lados), que estão fora de sua esfera de atuação.
Além de fragilizar o comércio entre os dois países, a FecomercioSP considera inadmissível que decisões estratégicas e de alto impacto sejam tomadas à margem do diálogo diplomático e da construção de consensos . A ruptura de pontes comerciais não apenas compromete as cadeias produtivas, como também deteriora o ambiente de confiança entre as nações e a disposição das empresas para investir, gerar valor e ampliar trocas no mercado internacional.
A Entidade reafirma a verdade de que o caminho para o desenvolvimento sustentável passa pela abertura e pela diversificação de mercados , bem como pelo respeito às regras internacionais e pela valorização do entendimento diplomático entre países. Em vez de rupturas, o Comércio Mundial exige relações construídas com base no diálogo, na previsibilidade e em políticas que promovam o equilíbrio e as prosperidades”.
O presidente da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal, Fábio Brun, também se posicionou.
“O que torna essa decisão ainda mais complicada é o fator surpresa. Não se esperava que isso fosse anunciado agora, principalmente após uma tarifa semelhante já ter sido aplicada desde o dia 1º de abril”, afirmou Brun. Segundo ele, esse segundo movimento tarifário agrava ainda mais o cenário para a indústria nacional de base florestal , que já vem lidando com custos elevados e desafios logísticos.
De acordo com o governo dos Estados Unidos, a nova tributação foi justificada por um certo desequilíbrio na relação comercial com o Brasil. No entanto, para o presidente da APRE, esse argumento não se sustenta. “Na verdade, o Brasil é deficitário na relação com os Estados Unidos. Então, é difícil encontrar base econômica concreta para justificar essa medida “, mencionou.
Brun considera que a decisão tem uma motivação mais política do que comercial ou técnica, o que dificulta o diálogo econômico direto. “A composição para reverter essa situação terá que ser política e diplomática”, avaliou.






