Terça-feira, 22 de setembro de 2026
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Turismo Social do Sesc leva viajantes a uma imersão pela cultura, arte e história de Minas Gerais

Grupo formado por participantes de Araraquara e Bauru percorreu Cordisburgo, Belo Horizonte, Brumadinho e Sabará em roteiro que reuniu literatura, arqueologia, patrimônio histórico, arte contemporânea e religiosidade

Inhotim

Com 140 hectares, Museu Inhotim leva visitante a conhecer artistas e plantas de vários países; arte e natureza se encontram em meio à área de transição dos biomas Mata Atlântica e Cerrado - foto - Antônio Crispim

Viajar pode representar muito mais do que conhecer novos lugares. Pode ser também uma oportunidade de compreender a história, aproximar-se da arte e descobrir como diferentes períodos da formação do Brasil permanecem registrados na arquitetura, na literatura, nas manifestações religiosas e até na paisagem.

Essa é uma das propostas do Turismo Social do Sesc (Serviço Social do Comércio), programa que oferece viagens e hospedagens com foco em conhecimento, cultura, bem-estar e recreação.

Entre os dias 25 e 30 de agosto, um grupo formado por participantes de Araraquara e Bauru percorreu Minas Gerais em uma programação intensa que passou por quatro cidades: Cordisburgo, Belo Horizonte, Brumadinho e Sabará.

O roteiro permitiu conhecer desde a terra natal de João Guimarães Rosa e a Gruta do Maquiné até o conjunto arquitetônico da Pampulha, museus de Belo Horizonte, o Instituto Inhotim e o patrimônio histórico e religioso de Sabará.

Viagem vai além dos passeios turísticos

Um dos diferenciais do programa é o acompanhamento durante o roteiro. Guias de turismo participam da viagem desde o início e, nos destinos, o grupo também conta com profissionais locais, que ajudam a apresentar a história e as características dos pontos visitados. O grupo foi acompanhado pelo guia Jenilson Oliveira e em Minas, teve o acompanhamento e informações da guia e professora Neuma Horta.

Essa estrutura transforma a experiência. Para quem deseja conhecer mais profundamente os destinos, as visitas deixam de ser simples passeios e se aproximam de verdadeiras aulas de história, arte, arquitetura, literatura e cultura brasileira.

Cada uma das quatro cidades apresentou aos viajantes um capítulo diferente dessa história.

Cordisburgo: da arqueologia à literatura

Na Gruta do Maquiné, Peter Lund encontrou fósseis do tigre de bengala e da preguiça gigante - Antônio Crispim 

Com aproximadamente 7,5 mil habitantes, Cordisburgo, a cerca de 120 quilômetros de Belo Horizonte, reúne dois importantes capítulos da história brasileira: as pesquisas arqueológicas e paleontológicas desenvolvidas na região e a literatura de João Guimarães Rosa.

Um dos principais pontos turísticos é a Gruta do Maquiné, associada às pesquisas do naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, considerado uma figura fundamental para o desenvolvimento da paleontologia, arqueologia e espeleologia no Brasil.

Ao longo de décadas de estudos em cavernas da Bacia do Rio das Velhas, Lund reuniu milhares de peças e encontrou fósseis de animais pré-históricos, como tigre-dente-de-sabre, preguiça-gigante e tatu-gigante.

As pesquisas realizadas na região de Lagoa Santa também contribuíram de maneira decisiva para os estudos sobre a presença humana pré-histórica no território brasileiro.

Terra de Guimarães Rosa

Museu ainda conserva muitos móveis da casa de Guimarães Rosa. O fogão tem mais de 100 anos - foto Antônio Crispim

Se as cavernas ajudaram a projetar Cordisburgo no campo científico, a literatura deu à pequena cidade reconhecimento internacional.

Foi ali que nasceu João Guimarães Rosa, um dos maiores nomes da literatura brasileira.

A casa onde o escritor passou parte da infância e onde sua família mantinha um estabelecimento comercial foi transformada em museu.

Médico e diplomata, Guimarães Rosa alcançou projeção principalmente pela literatura. Sua obra mais conhecida, “Grande Sertão: Veredas”, tornou-se referência internacional.

A complexidade da escrita rosiana, marcada por neologismos, regionalismos, recriações vocabulares e experimentações com a língua portuguesa, faz da tradução de suas obras um desafio especial.

Visitar Cordisburgo, portanto, é percorrer ao mesmo tempo o universo científico das cavernas mineiras e o sertão recriado pela linguagem de Guimarães Rosa.

Belo Horizonte simbolizou uma nova capital

A segunda etapa do roteiro levou os participantes a Belo Horizonte, cidade planejada no final do século XIX para substituir Ouro Preto como capital mineira.

Inaugurada em dezembro de 1897 com o nome de Cidade de Minas, passou a se chamar Belo Horizonte poucos anos depois.

A construção da nova capital ocorreu nos primeiros anos da República e representava um projeto de modernização, em contraste com Ouro Preto, antiga Vila Rica, profundamente marcada pelo período colonial.

Belo Horizonte foi implantada na área do antigo Curral Del-Rei e tornou-se uma das primeiras grandes cidades planejadas do Brasil.

Pampulha mostra ligação entre Niemeyer e JK

Na capital mineira, um dos destaques da programação foi o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, ligado a dois personagens fundamentais da arquitetura e da política brasileira: Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek.

O grupo também conheceu a Casa JK, espaço dedicado à preservação da memória relacionada ao ex-presidente, que também foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais.

A relação entre JK e Niemeyer ajudou a produzir algumas das obras arquitetônicas mais emblemáticas do país.

Outro ponto do roteiro foi a Praça da Liberdade, que durante décadas concentrou a sede do Governo de Minas Gerais e suas secretarias. Com a transferência administrativa para a Cidade Administrativa, antigos prédios públicos passaram a integrar um circuito voltado principalmente à cultura.

Museu preserva a história do trabalho

Fogão de mesa, ma relíquia secular está no Museu de Artes e Ofício de Belo Horizonte - foto - Antônio Crispim

Os viajantes também conheceram o Museu de Artes e Ofícios, instalado em  edifícios históricos ligados à antiga estação ferroviária na região central de Belo Horizonte.

Seu acervo apresenta instrumentos, máquinas, equipamentos e objetos relacionados a diferentes atividades desenvolvidas ao longo da história.

Transporte, cerâmica, couro e diversos outros ofícios aparecem representados em centenas de peças.

Parte importante desse acervo teve origem na coleção reunida pela família Gutierrez ao longo dos anos, permitindo preservar objetos que ajudam a contar a história do trabalho no Brasil.

Inhotim: encontro entre arte e natureza

Museu de Inhotim tem 14o hectares, com galerias e obraas de artistas contemporâneos de vários países e o Jardim Botânico, com trabalho de renomados paisagistas, tem plantas de todos os continentes - foto Antônio Crispim

Em Brumadinho, a experiência mudou completamente de cenário.

O destino foi o Instituto Inhotim, espaço que reúne arte contemporânea e jardim botânico em uma extensa área verde.

Concebido a partir da década de 1980 pelo empresário Bernardo Paz e aberto ao público em 2006, Inhotim tornou-se um dos mais conhecidos museus a céu aberto do mundo.

Instalado em uma área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, reúne galerias, instalações e obras de dezenas de artistas contemporâneos.

O contraste chama a atenção especialmente durante a estiagem. Em uma região marcada em determinados pontos pela paisagem seca, o visitante encontra dentro de Inhotim jardins cuidadosamente mantidos e uma grande diversidade de plantas.

Um dia é pouco para conhecer Inhotim

As dimensões do espaço ajudam a explicar por que uma única visita dificilmente é suficiente para conhecer todas as galerias e obras.

Os trabalhos artísticos estão distribuídos por diferentes áreas e integrados aos jardins, fazendo com que o próprio deslocamento entre uma obra e outra faça parte da experiência.

Além das galerias e áreas externas, Inhotim dispõe de restaurantes, lojas e sistema interno de locomoção para auxiliar os visitantes.

A experiência mistura arte, arquitetura, paisagismo e meio ambiente de uma maneira difícil de encontrar em museus convencionais.

Sabará preserva marcas do período colonial

A última cidade do roteiro foi Sabará, às margens do Rio das Velhas.

A história da ocupação da região está diretamente relacionada às expedições pelo interior e à exploração do ouro. Entre os personagens associados a esse processo está o bandeirante Fernão Dias Paes.

Por volta de 1700, o Arraial da Barra do Sabará já apresentava intensa movimentação e ocupava posição estratégica relacionada à Estrada Real.

Em 1711, foi elevado à condição de Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará. Poucos anos depois, tornou-se sede da extensa Comarca do Rio das Velhas.

Centro histórico é uma viagem no tempo

Percorrer o centro histórico de Sabará é encontrar ruas estreitas, calçamento antigo, casarões, igrejas e construções que preservam características de diferentes momentos da formação de Minas Gerais.

O roteiro turístico inclui ainda teatro, museus e templos religiosos.

Na cidade também é possível observar externamente a casa onde teria vivido Aleijadinho durante aproximadamente 14 anos. O imóvel é particular e não está aberto à visitação.

É nas igrejas, porém, que uma parcela significativa da história artística e religiosa de Sabará permanece preservada.

Igrejas guardam riqueza do barroco mineiro

Entre os principais templos está a Igreja de Nossa Senhora do Ó, também conhecida como Capela do Ó, construída no início do século XVIII e marcada pela riqueza da decoração interna, com talhas douradas e elementos de influência oriental.

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo, cuja construção teve início em 1763, reúne trabalhos atribuídos a Aleijadinho e sua equipe.

Outro destaque é a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, com altares em talha dourada e características marcantes da arquitetura religiosa colonial.

Já a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, iniciada no século XVIII por uma irmandade negra, permaneceu inacabada. Suas paredes e estruturas expostas permitem observar técnicas construtivas utilizadas naquele período.

Ruas do centro de Sabará são estreitas e com pedras - foto Antônio Crispim
Capelá do Ó, com mais de 300 anos - foto Antônio Crispim
Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos nunca será acabada, pois foi tombada e não pode haver mudanças - foto Antônio Crispim

Quatro cidades, diferentes capítulos da história brasileira

Ao final do roteiro, as quatro cidades visitadas mostraram experiências bastante distintas.

Em Cordisburgo, cavernas, ciência e Guimarães Rosa. Em Belo Horizonte, o nascimento de uma capital planejada, arquitetura e museus. Em Brumadinho, a união entre arte contemporânea e natureza. Em Sabará, o patrimônio colonial, o barroco e a religiosidade.

Mais do que levar participantes de Araraquara e Bauru a Minas Gerais, a proposta do Turismo Social do Sesc proporcionou uma viagem por diferentes períodos da própria formação cultural brasileira.

É justamente essa combinação entre turismo, informação e conhecimento que transforma o roteiro: o viajante não apenas conhece novos lugares, mas volta entendendo um pouco mais da história que ajudou a formar o Brasil.

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