Terça-feira, 3 de novembro de 2026
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UMA BARBÁRIE SOCIAL — O BRAZIL QUE ESTÁ MATANDO O BRASIL

Vinheta

Respeitando o espírito do tempo, o “Zeitgeist”, e guardando as devidas proporções entre os períodos sombrios que já abateram a humanidade, os últimos acontecimentos da política nacional e a escalada da violência me levam a uma inquietante reflexão: estaremos entrando em um novo ciclo, o da barbárie social?

O ressurgimento da violência política, do extremismo, do preconceito e da desumanização nas relações de trabalho remete à sensação de retrocesso civilizatório. A barbárie apresenta, mais uma vez, sua face nefasta: uma reedição da intolerância.

Anestesiados, assistimos ao crescimento do discurso de ódio e à radicalização nas plataformas digitais, onde algoritmos frequentemente premiam a divisão. Cresce a intolerância ao contraditório e se multiplicam episódios de agressão contra figuras públicas e instituições democráticas. O preconceito regional e o bairrismo tóxico ganham força, por vezes com viés de supremacia racial, ironia cruel em um país cuja miscigenação é um de seus maiores capitais culturais.

O Brazil está matando o Brasil. O Ministério da Justiça informou que dez pessoas foram mortas em episódios de violência política no contexto do segundo turno, realizado em 25 de outubro. Houve espancamentos, atropelamentos intencionais e disparos de arma de fogo. A brutalidade se intensificou na noite de domingo, quando apoiadores do candidato derrotado atacaram eleitores que celebravam a vitória de Lula.

O assédio eleitoral é outra grave preocupação. O governo federal anunciou medidas para enfrentá-lo e criou uma força-tarefa no Ministério do Trabalho para notificar redes sociais e requerer a retirada de conteúdos que promovam perseguição ou discriminação de trabalhadores e empreendedores por motivação política. Após o resultado, foram registradas 1.459 denúncias de assédio eleitoral. Multiplicaram-se publicações de políticos, influenciadores e empresários incentivando a demissão de funcionários que teriam votado no presidente reeleito, sob o falso argumento de que agiram contra os interesses das empresas e do país.

Araçatuba, por sua vez, também faz parte dessa triste reedição da intolerância. A população se chocou com a agressão a um chapeiro de 34 anos, esfaqueado por um colega após discussão motivada por comentários sobre o resultado das eleições. Outro episódio preocupante foi o registro de boletins de ocorrência por comerciantes, empresários e profissionais liberais após a circulação, nas redes, de uma lista com nomes de supostos apoiadores do presidente Lula, sugerindo que consumidores boicotassem seus estabelecimentos.

Parlamentares, independentemente do espectro político ou da casa legislativa a que pertençam, não podem contribuir para amplificar e legitimar a lógica da retaliação. Quando transformam divergência eleitoral em intimidação de trabalhadores, consumidores e empresários opositores, desestabilizam deliberadamente ou por imprudência a convivência democrática.

A democracia pressupõe divergência, debate e disputa de projetos; jamais pode se submeter à intolerância. A grande questão que a história nos deixa é: se a humanidade já conheceu o destino do caminho da barbárie, por que voltamos a trilhá-lo? Urge interromper essa espiral de insensatez, com firmeza institucional, responsabilidade pública e recusa clara ao ódio.

EVANDRO EVERSON DOS SANTOS

Policial militar aposentado e economista

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