Segunda-feira, 2 de novembro de 2026
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A Bancada da Fuga: O melancólico epílogo de Flávio Bolsonaro e o colapso do clã

Vinheta

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos, consumada logo após sua derrota no segundo turno das eleições presidenciais de outubro de 2026, expõe o enfraquecimento definitivo e as profundas contradições do clã que dominou a extrema-direita brasileira. Ao cruzar a fronteira terrestre pela Argentina para ignorar a ordem do ministro Alexandre de Moraes de entrega de passaportes, Flávio não inova; ele apenas repete uma estratégia de evasão jurídica que se tornou o verdadeiro modus operandi de seus parentes e correligionários.

O comportamento de Flávio espelha de forma quase simétrica o de seu irmão, o ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estados Unidos em 2025 e hoje é considerado foragido da Justiça brasileira. A lista de aliados que escolheram o exílio para evitar o alcance da lei inclui nomes de peso do ecossistema bolsonarista, como a deputada Carla Zambelli (detida na Itália), o ex-diretor da PRF Silvinei Vasques e o ex-deputado Alexandre Ramagem. Contudo, o contraste mais flagrante dessa debandada ocorre dentro de casa: enquanto a base de apoio e os filhos se dispersam pelo exterior, o patriarca da família, Jair Bolsonaro, permanece no Brasil cumprindo prisão domiciliar. O desenho das rotas de fuga deixa claro que o plano de escape dos herdeiros priorizou a salvaguarda individual em detrimento do líder político do movimento.

A pressa em deixar o território nacional coincide com o sufocamento jurídico do parlamentar, que ostenta uma marca vergonhosa para quem ocupa uma cadeira no Congresso Nacional: Flávio Bolsonaro acumulou mais processos e inquéritos criminais na Justiça do que projetos de lei convertidos em legislação definitiva ao longo de seus oito anos no Senado. Enquanto sua atuação no Legislativo se mostrou amplamente inócua com apenas duas propostas aprovadas que sequer viraram leis de fato, a contabilidade de suas investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) é extensa e asfixiante. Ele responde por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no caso que apura o financiamento de R$ 134 milhões do filme "Dark Horse" (cinebiografia de seu pai) via Banco Master, além de um inquérito recente sobre ocultação de bens e ligações financeiras suspeitas com esquemas de casas de apostas (bets) envolvendo o advogado Willer Tomaz.

A evasão de Flávio Bolsonaro, sob o pretexto de uma "perseguição política" que ele nunca conseguiu provar, encerra o ciclo de um parlamentar cuja única herança legislativa relevante foi o aperfeiçoamento da própria blindagem. Ao escolher o exílio dourado no exterior enquanto deixa para trás o pai idoso na prisão domiciliar e uma militância órfã e enganada, o clã demonstra que o patriotismo coreografado nos palanques sempre foi um produto de fachada. No fim, a bravata da bancada da família reduziu-se a uma fuga desesperada de aeroporto, revelando que a única "instituição" que os Bolsonaro realmente souberam proteger e salvar foi a si mesmos.

ALMIR FERNANDES LIMA

ADVOGADO

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