Deixar a terra natal, despedir-se da família, enfrentar uma longa viagem pelo oceano e chegar a um país desconhecido, sem saber o que o futuro reservava. Essa foi a realidade de milhares de italianos que, a partir do final do século XIX, atravessaram o Atlântico em busca de uma vida melhor no Brasil.
Mais de um século depois, as histórias dessas famílias continuam presentes nos sobrenomes, nas tradições, na culinária e, principalmente, na memória de seus descendentes.
É esse universo de sonhos, dificuldades, coragem e pertencimento que a jornalista e turismóloga Caroline Nunes resgata no livro “Imigração Italiana: os desafios, os sonhos e a construção de uma nova vida no Brasil”.
A publicação é o primeiro volume de uma série dedicada à história, à memória e à influência da imigração italiana na formação da sociedade brasileira.
Mais do que recuperar acontecimentos históricos, a autora procura compreender o que levou tantas famílias a abandonar suas origens e como essas decisões continuam influenciando a vida de seus descendentes.
Uma viagem ao passado para compreender o presente
A obra acompanha a trajetória dos imigrantes desde a Itália recém-unificada, marcada pela pobreza rural e por dificuldades econômicas, até a chegada ao Brasil, onde a promessa de prosperidade nem sempre correspondia à realidade encontrada.
Caroline reconstrói as despedidas, as travessias em navios superlotados e as condições enfrentadas pelos trabalhadores que chegaram às fazendas de café paulistas.
O livro também aborda o sistema de colonato, a formação das comunidades italianas e a preservação de costumes e tradições que atravessaram gerações.
Entre os temas está o surgimento e a permanência do Talian, variedade linguística desenvolvida entre comunidades de descendentes de italianos no Brasil.
Ao longo das páginas, o leitor encontra uma história que vai além da imigração como fenômeno econômico e social. É também uma narrativa sobre famílias separadas pela distância, sonhos construídos em terras desconhecidas e identidades preservadas apesar da passagem do tempo.
A pergunta que deu origem ao livro
Descendente de italianos, Caroline encontrou na própria história familiar a motivação para investigar o passado.
A jornalista conta que a vontade de compreender as experiências de seus antepassados se transformou em uma pesquisa que ultrapassou os limites do trabalho profissional.
“Este livro nasceu dessa vontade de voltar no tempo e tentar compreender uma pergunta que, durante muitos anos, esteve silenciosamente dentro de mim: o que meus antepassados viveram para que, tantos anos depois, eu existisse?”, revela.
Para a autora, conhecer a trajetória dos imigrantes também significa compreender a própria identidade.
“Quando a história também é nossa, não existe distância suficiente. A pesquisa deixa de ser apenas trabalho: ela toca a memória, toca a família, toca a identidade e, algumas vezes, alcança lugares que nem sabíamos existir dentro de nós.”
Essa ligação entre passado e presente é um dos elementos centrais da publicação.
Cidadania italiana também faz parte da história
Além de reconstruir a chegada e a adaptação dos italianos ao Brasil, o livro aborda a cidadania italiana por descendência, conhecida como iure sanguinis.
O tema ganhou importância na trajetória pessoal e profissional de Caroline, que atua ao lado do marido na pesquisa documental e no acompanhamento de processos de reconhecimento da cidadania italiana.
A obra também trata das mudanças recentes na legislação italiana, assunto que desperta interesse de descendentes que desejam compreender seus direitos e as condições para o reconhecimento da cidadania.
Para muitas famílias, a busca começa com um sobrenome, uma certidão antiga ou uma informação transmitida pelos avós.
A partir desses registros, surgem histórias de pessoas que deixaram suas cidades, enfrentaram dificuldades e construíram novas gerações longe de sua terra natal.
Caroline conhece esse processo de perto.
Em suas próprias pesquisas familiares, conseguiu reconstruir trajetórias relacionadas aos sobrenomes Sciotti e Mazzoni.
Segundo a autora, mais de 115 integrantes de sua família tiveram a cidadania italiana reconhecida por meio de seu trabalho.
A experiência pessoal acabou se transformando em profissão e aprofundou sua relação com as histórias de descendentes que buscam recuperar documentos e reconstruir suas origens.
Da carreira jornalística à vida na Itália
Caroline Nunes é jornalista, turismóloga e descendente de italianos.
Durante sua atuação profissional em Campinas, escreveu uma coluna dedicada à origem dos nomes das ruas e às histórias relacionadas aos distritos de Sousas e Joaquim Egídio.
O interesse pela memória dos lugares e pelas pessoas que ajudaram a construí-los já fazia parte de seu trabalho jornalístico.
Em 2019, mudou-se para a Itália com o marido e passou a se dedicar à pesquisa documental e aos processos de reconhecimento de cidadania.
Ao longo dos anos, a atividade permitiu que acompanhasse histórias de famílias que, muitas vezes, conheciam apenas fragmentos do passado de seus antepassados.
Cada certidão localizada, cada sobrenome identificado e cada documento recuperado representava uma nova peça na reconstrução dessas trajetórias.
Segundo Caroline, o contato com milhares de descendentes revelou um elemento recorrente: histórias marcadas pelo sofrimento, pela resistência e pela determinação de construir um futuro melhor para as gerações seguintes.
Foi dessa convivência com a memória de tantas famílias que surgiu a inspiração para escrever seu primeiro livro.
Uma herança que vai além dos documentos
Estruturada em seis capítulos, um epílogo e um glossário de termos italianos, a publicação reúne pesquisa histórica, documentação e experiências acumuladas pela autora.
O livro é voltado a descendentes de italianos, pesquisadores, interessados em genealogia e leitores que desejam compreender a influência da imigração italiana na sociedade brasileira.
A proposta também é mostrar que a herança deixada pelos imigrantes não se resume ao direito de obter um documento ou reconhecer uma cidadania.
Ela está presente nas receitas transmitidas entre gerações, nas palavras incorporadas ao cotidiano, nas festas familiares, nas tradições religiosas, nos costumes e nas histórias contadas pelos mais velhos.
Muitas vezes, essa herança permanece viva mesmo quando os descendentes já não conhecem os nomes ou os lugares de origem de seus antepassados.
Primeiro volume de uma série sobre a presença italiana no Brasil

“Imigração Italiana: os desafios, os sonhos e a construção de uma nova vida no Brasil” inaugura uma série que pretende explorar diferentes dimensões da influência italiana no país.
Os próximos temas previstos incluem cultura, gastronomia, vinho, linguagem, arte, territórios e comunidades.
A proposta é ampliar o olhar sobre a presença italiana no Brasil e valorizar as contribuições de gerações que participaram da construção da identidade nacional.
Ao transformar a própria busca familiar em pesquisa e literatura, Caroline Nunes convida o leitor a olhar para o passado não apenas como uma sucessão de acontecimentos históricos, mas como parte de sua própria existência.
Afinal, por trás de cada sobrenome de origem italiana pode existir uma história de despedida, coragem, sacrifício e esperança.
E conhecer essas histórias é também uma forma de reconhecer aqueles que atravessaram o oceano para que seus descendentes pudessem construir novos caminhos.






