A ascensão de figuras políticas cuja principal credencial é o engajamento digital transformou o debate público em um circo de quinta categoria. Personagens caracterizados pela prepotência, pela arrogância e pela infalível cultura do "lacre" ocupam cada vez mais espaço no cenário governamental, operando como verdadeiros memes humanos. Desprovidos de qualquer bagagem teórica, profundidade intelectual ou uma história de serviço público que vá além de criar polêmicas para alimentar o algoritmo, esses indivíduos sustentam sua popularidade exclusivamente na espetacularização e no confronto de redes sociais. Onde antes se exigia preparo, hoje basta um celular, boa iluminação e nenhuma vergonha na cara.
A projeção e o estrondoso sucesso dessas figuras, contudo, não ocorrem por acaso. Eles não invadiram o poder; foram convidados a entrar. São o reflexo direto do comportamento de um eleitorado moderno que parece ter trocado o cérebro pelo botão de "compartilhar". Parcelas significativas dos eleitores passaram a priorizar o impacto de vídeos curtos, frases de efeito e cortes de discussões em detrimento de propostas sólidas.
A inteligência, o histórico administrativo e o preparo intelectual passaram a ser rotulados como "elitistas" ou, pior, "tediosos". O eleitor de hoje engaja com o conflito, premiando com o voto o candidato que gera mais visualizações, como se governar um país, um Estado ou município fosse o equivalente a gerenciar um canal de pegadinhas.
Essa inconsequência ganhou contornos de epidemia dinástica. A mais recente apuração eleitoral escancarou o fenômeno da votação exponencial de múltiplos membros de uma mesma família. Impulsionados pela grife do sobrenome e pelo ecossistema de cortes digitais, clãs inteiros transformaram o Estado em um negócio de família. Essa ocorrência já não se limita a redutos isolados: ela se difundiu por todas as esferas políticas, do âmbito municipal ao federal. O "lacre" virou herança e o eleitor, o fiador desse nepotismo digitalizado.
O resultado dessa ressaca democrática é severo. Mandatos totalmente vazios de propostas resultam em gestões tragicamente ineficazes, com uma incapacidade crônica de formular leis viáveis e a paralisia de serviços essenciais por pura falta de conhecimento técnico. A discussão política deixa de ser sobre saúde, educação ou economia e passa a orbitar em torno de polêmicas fabricadas e ataques pessoais para manter a audiência digital engajada. Parlamentos, assembleias e câmaras municipais são transformados em estúdios de gravação para o TikTok, esvaziando o respeito e a seriedade que as instituições republicanas exigem. É o triunfo da incompetência gourmetizada e hereditária.
Para romper esse ciclo, a mudança depende exclusivamente do eleitor: é preciso assumir a responsabilidade pelo clique e boicotar esses personagens, cortando o oxigênio da atenção que os mantém vivos.
A política, afinal, não é um palco de stand-up nem um reality show de confinamento; suas decisões custam vidas, inflação e o futuro de gerações. Enquanto o voto continuar sendo tratado como um botão de "curtir" ou uma ferramenta de vingança infantil contra o sistema, o resultado continuará sendo a paralisia institucional, o enriquecimento de clãs e a incompetência gerencial. A solução para essa palhaçada generalizada não virá de leis que proíbam os despreparados ou os parentes de se candidatarem, mas sim de uma sociedade que finalmente amadureça e volte a enxergar a seriedade, o intelecto e a bagagem como requisitos obrigatórios e não opcionais para quem deseja exercer o poder. Até lá, continuaremos sendo governados por piadas de mau gosto.
ALMIR FERNANDES LIMA
ADVOGADO





