Sábado, 31 de outubro de 2026
MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade

A lista dos que trabalhavam versus a lista dos que choram no WhatsApp

Vinheta

 É fascinante observar o esforço comovente de certas mentes que, presas em um túnel do tempo mental, decidiram ressuscitar o voto de cabresto em plena era da inteligência artificial. A mais nova modalidade de passatempo para quem tem tempo de sobra e discernimento de menos é a confecção de listas de profissionais e empresários que cometeram o "crime hediondo" de votar no Lula. É a inquisição do WhatsApp, onde o feudo tenta emitir certidão de idoneidade ideológica para o livre mercado.

A primeira piada desse manifesto de condomínio é a própria ilusão de poder dos seus criadores. Imaginar que um empresário que fatura milhões, gera empregos e equilibra a corda bamba da economia real vai pedir autorização ao fiscal de rede social para apertar um botão na urna é de um otimismo patético. O sujeito passa o ano inteiro driblando burocracia, pagando imposto e gerindo riscos, para depois ser intimado por uma planilha de Excel gerada por alguém cuja maior realização profissional é ser administrador de grupo de família.

A incoerência chega a ser poética. Os paladinos da "liberdade econômica" e do "livre mercado" resolveram adotar o método mais puro de boicote coletivista. Querem o capitalismo, mas só se o dono da padaria rezar pela mesma cartilha. A lógica é soberba: "Sou a favor do livre mercado, desde que o mercado compre exatamente o que eu mando e vote em quem eu aprovo". Se o ridículo pagasse imposto, essa turma quebraria o país sozinha.

 No fim das contas, a engenharia desse boicote de salão de festas esbarra na dura realidade: a democracia não aceita porteira e a consciência não usa cabresto. O resultado final dessa epopeia bufa é sempre o mesmo. O "revolucionário de sapatênis" jura que vai fechar o comércio alheio, mas na primeira dor de dente meia-noite descobre que o único dentista plantonista da cidade está na sua lista negra. O pneu do carro fura na estrada e o borracheiro é "comunista". A internet cai no meio da série e o provedor é de esquerda. O patriota de condomínio se vê obrigado a viver de luz e brisa para manter o boicote de pé. Enquanto os empresários listados continuam lucrando e tocando o país, resta ao guerreiro do teclado chorar no banho, engolir o orgulho e pedir um Uber rezando para o motorista não ser o número treze da lista que ele mesmo repassou.

ALMIR FERNANDES LIMA

ADVOGADO

Compartilhar
Publicidade

Leia também