Quarta-feira, 28 de outubro de 2026
MPJ | Mais Pelo Jornalismo
Publicidade

CONVERSA DE BUTIQUIM

Vinheta

O Butiquim do Felinto era o destino de Tião dia sim, dia também. Ali, ele jogava conversa fora, espantava as agruras da vida e voltava para casa com a alma no lugar.

Naquela tarde, chegou de cabeça cheia. Sentou-se na banqueta alta,  na ponta do balcão, e cumprimentou a pessoa que estava à sua frente, do balcão para dentro. Talvez fosse o irmão do dono — a vista andava curta e não dava para distinguir. Mas o cumprimento do outro veio instantâneo, no mesmo movimento.

— Essa cerveja é mais forte, viu? — avisou Margô, já servindo.

— Eu sei, mulher. O problema hoje não é a bebida, é a cabeça. Falando isso, tornou a olhar para o sujeito à frente: — Boa noite, chefe. Calor danado, hein?

O homem meneou a cabeça, breve, como quem concordava com o mundo inteiro.

— E essa secura? Acho que vem chuva.

Outro meneio, agora com olhar de espanto.

— Meu time perdeu de novo. Levou três no segundo tempo. O Palmeiras não perdoa.

O sujeito ergueu a sobrancelha, e Tião entendeu o recado: também não tinha paciência com o Palmeiras. Fizeram um brinde para o time deles.

— E a política? Um diz uma coisa, o outro desdiz. Sabe o Renato, o vereador? A última dele é de dar dor de cabeça.

O outro levou a mão à testa. Também não devia aguentar mais o Renato.

— As eleições, então? Ninguém sabe nada, todo mundo sabe tudo.

Veio um olhar de reprovação, e Tião concordou com ele, satisfeito.

— Mas nem tudo é desgraça. Meu filho mais velho se forma em Medicina neste mês. Seis anos, meu amigo. Seis anos de madrugada, de livro, de ônibus. Fizeram outro brinde e viraram o copo!

O homem abriu um sorriso largo, generoso, de quem aprovava o rapaz.

— E o Thor, meu cão? Frieira nas patas. Está deitado na almofada, reclamando de mim, com aquela cara de quem pagou a conta.

O interlocutor balançou a cabeça,  com ar de quem já viu de tudo nesta vida.

Assim foi: uma frase de Tião, um gesto do outro. Um desabafo, um sorriso. Uma história comprida, uma sobrancelha erguida. Margô sempre renovando a garrafa de cerveja,  o ventilador rodando, o balcão enchendo e esvaziando.

Tião pediu um espetinho de frango, o outro comeu ao mesmo tempo. Debruçou-se sobre o balcão e acordou depois de 40 minutos.  O outro levantou a cabeça do balcão ao mesmo tempo. Cara bacana. Empático.

Quando Tião olhou o relógio da parede, levou um susto: onze da noite. Quatro horas de papo.

— Meu Deus, essa hora a mulher já perdeu a paciência. Vou apanhar de cinta e vassourada na porta! — Levantou-se e cumprimentou o companheiro. — Obrigado pela companhia, pela solidariedade, pelos conselhos. Pendura a cerveja na minha conta, Margô.

Depois que a porta fechou, Felinto enxugou um copo e comentou:

— O Tião está esquisito hoje.

— Mas saiu melhor do que entrou.

— Não está bem, o coitado! Ficou falando sozinho com o espelho da parede!

Margô pendurou o pano no ombro e olhou para a porta.

— Mas saiu melhor do que entrou.

Jorge Kuranaka é procurador do estado e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Compartilhar
Publicidade

Leia também