O Butiquim do Felinto era o destino de Tião dia sim, dia também. Ali, ele jogava conversa fora, espantava as agruras da vida e voltava para casa com a alma no lugar.
Naquela tarde, chegou de cabeça cheia. Sentou-se na banqueta alta, na ponta do balcão, e cumprimentou a pessoa que estava à sua frente, do balcão para dentro. Talvez fosse o irmão do dono — a vista andava curta e não dava para distinguir. Mas o cumprimento do outro veio instantâneo, no mesmo movimento.
— Essa cerveja é mais forte, viu? — avisou Margô, já servindo.
— Eu sei, mulher. O problema hoje não é a bebida, é a cabeça. Falando isso, tornou a olhar para o sujeito à frente: — Boa noite, chefe. Calor danado, hein?
O homem meneou a cabeça, breve, como quem concordava com o mundo inteiro.
— E essa secura? Acho que vem chuva.
Outro meneio, agora com olhar de espanto.
— Meu time perdeu de novo. Levou três no segundo tempo. O Palmeiras não perdoa.
O sujeito ergueu a sobrancelha, e Tião entendeu o recado: também não tinha paciência com o Palmeiras. Fizeram um brinde para o time deles.
— E a política? Um diz uma coisa, o outro desdiz. Sabe o Renato, o vereador? A última dele é de dar dor de cabeça.
O outro levou a mão à testa. Também não devia aguentar mais o Renato.
— As eleições, então? Ninguém sabe nada, todo mundo sabe tudo.
Veio um olhar de reprovação, e Tião concordou com ele, satisfeito.
— Mas nem tudo é desgraça. Meu filho mais velho se forma em Medicina neste mês. Seis anos, meu amigo. Seis anos de madrugada, de livro, de ônibus. Fizeram outro brinde e viraram o copo!
O homem abriu um sorriso largo, generoso, de quem aprovava o rapaz.
— E o Thor, meu cão? Frieira nas patas. Está deitado na almofada, reclamando de mim, com aquela cara de quem pagou a conta.
O interlocutor balançou a cabeça, com ar de quem já viu de tudo nesta vida.
Assim foi: uma frase de Tião, um gesto do outro. Um desabafo, um sorriso. Uma história comprida, uma sobrancelha erguida. Margô sempre renovando a garrafa de cerveja, o ventilador rodando, o balcão enchendo e esvaziando.
Tião pediu um espetinho de frango, o outro comeu ao mesmo tempo. Debruçou-se sobre o balcão e acordou depois de 40 minutos. O outro levantou a cabeça do balcão ao mesmo tempo. Cara bacana. Empático.
Quando Tião olhou o relógio da parede, levou um susto: onze da noite. Quatro horas de papo.
— Meu Deus, essa hora a mulher já perdeu a paciência. Vou apanhar de cinta e vassourada na porta! — Levantou-se e cumprimentou o companheiro. — Obrigado pela companhia, pela solidariedade, pelos conselhos. Pendura a cerveja na minha conta, Margô.
Depois que a porta fechou, Felinto enxugou um copo e comentou:
— O Tião está esquisito hoje.
— Mas saiu melhor do que entrou.
— Não está bem, o coitado! Ficou falando sozinho com o espelho da parede!
Margô pendurou o pano no ombro e olhou para a porta.
— Mas saiu melhor do que entrou.
Jorge Kuranaka é procurador do estado e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.






