Indignado com o resultado do segundo turno da eleição presidencial, o morador de Mirandópolis Reinaldo Cardoso de Sá, de 58 anos, encontrou uma maneira inusitada de manifestar seu descontentamento: rasgou o próprio título de eleitor e jogou os pedaços no lixo.
O protesto ocorreu logo após a conclusão da apuração que confirmou a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para mais quatro anos de mandato.
Para Reinaldo, o gesto foi uma reação espontânea ao sentimento de frustração com o processo eleitoral. Ele reconhece, entretanto, que sua atitude pode não ter sido a mais adequada.
“Eu tenho uma forma de pensar. Eu creio em Deus. Creio também que Ele é soberano, supremo em tudo. E, apesar da minha indignação e da minha atitude, que talvez nem tenha sido a correta, foi o sentimento que tive na hora. Eu me senti lesado diante de tudo o que aconteceu. E não foi só agora, no segundo turno. Isso já vem acontecendo em outras eleições também”, afirmou.
“O título era apenas o ingresso para o circo”

Reinaldo já havia manifestado seu descontentamento em um artigo de opinião, no qual comparou as eleições a um grande circo e o título de eleitor ao ingresso para o espetáculo.
Segundo ele, a comparação traduz o sentimento de quem acredita participar de uma escolha democrática, mas termina o processo frustrado e desconfiado do resultado.
“A gente fica indignado porque se sente como um palhaço. Você dedica seu tempo, supostamente tem a sua escolha e, no final, fica com a sensação de que até aqueles que acreditam ter escolhido também passaram por palhaços”, declarou.
O morador também levantou suspeitas sobre a condução da apuração eleitoral, afirmando acreditar que o resultado poderia estar previamente definido.
“Dá a entender que já estava tudo definido e que precisavam de tempo para justificar as definições que já existiam. Esse é o meu entendimento. Posso estar errado, mas foi o meu sentimento”, disse.
Fé e indignação
Apesar da revolta, Reinaldo afirma que sua fé continua sendo o principal fundamento de sua maneira de compreender os acontecimentos políticos.
“Hoje a gente desperta. Há diversas possibilidades do que pode ter acontecido. Mas, independentemente disso, Deus é soberano. Deus tem o controle de tudo. Existe a vontade de Deus e Ele permite as coisas”, afirmou.
Para o morador, os acontecimentos devem ser compreendidos também sob uma perspectiva religiosa.
“Em toda a história bíblica, para aqueles que creem, Deus tem o momento certo de agir. Diante de Deus há o tempo certo”, acrescentou.
Destruir o título não cancela o voto
Embora tenha forte significado simbólico para Reinaldo, cortar e descartar o título de eleitor não representa o cancelamento da inscrição eleitoral nem retira automaticamente suas obrigações perante a Justiça Eleitoral.
O documento físico é apenas uma das formas de identificação do eleitor. A inscrição permanece registrada na Justiça Eleitoral, e sua situação pode ser consultada pelos canais oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O protesto de Reinaldo ocorre em meio às manifestações de insatisfação de setores do eleitorado com o resultado da disputa presidencial. Em algumas localidades, apoiadores da família Bolsonaro também discutem a realização de atos públicos.
Para o morador de Mirandópolis, porém, o gesto de cortar o título foi uma manifestação individual de indignação e de descrença no processo eleitoral.






