Não há prova maior de desprendimento público do que o patriotismo da família Bolsonaro. Enquanto o cidadão comum sofre nas engrenagens do "sistema", essa dinastia de heróis decidiu adotar uma estratégia brilhante e dolorosa: viver sob o teto do Estado por décadas para tentar explodi-lo por dentro. Afinal, para combater o monstro da velha política, nada melhor do que alimentar-se dele, mandato após mandato, auxílio após auxílio.
É uma lógica quase poética. O ex-presidente passou quase trinta anos como deputado federal, enfrentando a duríssima rotina do Congresso Nacional, apenas para alertar o povo sobre os perigos da máquina pública. Percebendo que o fardo era pesado demais para um homem só, ele generosamente dividiu o fardo com os filhos mais velhos. Carlos, Eduardo e Flávio abdicaram da iniciativa privada ainda na juventude para se jogarem na trincheira dos cargos eletivos. É o verdadeiro "antissistema" raiz: aquele que combate os privilégios estatais acumulando décadas de salários pagos pelo contribuinte.
Mas a verdadeira obra-prima da engenharia política familiar aconteceu nas últimas eleições. Entendendo que o sistema é resiliente, o clã percebeu que a única forma de destruí-lo era por asfixia total. A ordem foi clara: ocupar absolutamente todas as vagas disponíveis para não deixar sobrar nada para a concorrência. É o monopólio da indignação.
Para salvar o Brasil da política tradicional, a estratégia foi espalhar o sobrenome como um manto protetor sobre o mapa do país. Michelle Bolsonaro foi ao Senado pelo Distrito Federal; Jair Renan e Carlos Bolsonaro, em um ato de puro desapego geográfico, migraram para Santa Catarina para garantir que o Sul também fosse purificado; o irmão Renato assumiu o front em São Paulo; enquanto Flávio lidera o avanço no Executivo.
Trata-se de um cerco sanitário perfeitamente calculado. Se um aliado da mesma ala ideológica ou um concorrente qualquer tentar disputar uma vaga para renovar a política, azar o dele. No mercado eleitoral da família, não há espaço para a livre concorrência. Se o sistema purificador exige que apenas tios, esposas, irmãos e filhos ocupem as cadeiras do poder, o clã aceita o sacrifício de preencher cada centímetro da folha de pagamento do Estado.
Assim, o plano de acabar com o sistema caminha para o seu ápice: transformá-lo em uma grande e próspera empresa familiar. E quem ousar criticar essa nobre dinastia burocrática certamente não entendeu que, na nova política, a melhor forma de fechar as tetas do governo é garantir que toda a família esteja devidamente amamentada.
ALMIR FERNANDES LIMA
ADVOGADO






