Sábado, 24 de outubro de 2026
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A POLÍTICA COMO ARTE PERDIDA

Vinheta

Há muito tempo a política, sobretudo em campanhas eleitorais, debates e no corpo a corpo em busca de votos deixou de ser a arte do convencimento. A política brasileira perdeu sua função essencial: convencer eleitores por meio de projetos para o bem comum.

Em vez de propostas capazes de promover crescimento sustentável e reduzir desigualdades, a campanha presidencial de 2026 se resume a acusações, provocações e slogans. O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band ilustrou essa degradação: pouco se discutiu de concreto, e muito se trocou de ataques pessoais e inimigos, tanto é que essa campanha presidencial é considerada a mais medíocre ocorrida no Brasil desde a redemocratização.

O espetáculo do medo, bem explorado pelos marqueteiros de campanhas com slogans como “a esperança venceu o medo”, “nós contra eles” e “Deus, Pátria e família” foi o ponto de partida para a degradação da política brasileira.

Como efeito devastador, o espetáculo do medo transformou a polarização política em algo criminoso, consolidando como vocabulário político dominante desde as campanhas eleitorais de 2018, substituindo o debate de ideias por uma guerra cultural, na qual o adversário é tratado como ameaça moral, religiosa ou nacional.

Retóricas políticas utilizadas à exaustão, como populismo fiscal, presentes tanto na esquerda quanto na direita, com promessas de proteção imediata e gastos sem critérios só servem para confundir o eleitor desinformado. Pior de tudo isso é a manipulação religiosa: a fé, que deveria inspirar responsabilidade e confrontar o poder, é convertida em instrumento eleitoral, transformando o púlpito em palanque e a dissidência em pecado.

Há, porém, uma conta concreta que a campanha evita: o Orçamento previa pelo menos R$ 612,8 bilhões em benefícios fiscais em 2026, equivalentes a 4,43% do PIB. Revisar esses subsídios sem eliminá-los de forma indiscriminada, mas avaliando custo, benefício, prazos e produtividade poderiam gerar folga fiscal e reduzir distorções. Seria um tema central de um debate sério, mas virou nota de rodapé.

Outro temor de acadêmicos de toda matizes ideológicas e até críticos do governo atual, é que mesmo que Lula seja derrotado, ele respeitaria a alternância de poder. Já seu oponente representa uma corrente que já demonstrou desprezo pelas regras democráticas. Por isso, mais que estabilidade fiscal, está em jogo á possibilidade de perder eleições e continuar sendo democracia.

O próximo presidente precisará de coragem para rever benefícios fiscais, conter o populismo fiscal que cobra depois na forma de inflação, juros e menos investimento e devolver a política ao bem comum. O Brasil não precisa de um novo Messias, mas de um governante capaz de convencer, com argumentos e números, de que é possível crescer sem gastar o futuro e governar para todos, não para um clã. Até agora, essa candidatura é a que mais faz falta.

Evandro Everson dos Santos é policial milurtar aposentado e economista

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