Sábado, 7 de novembro de 2026
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Castilho suspende equoterapia de 23 autistas, mas gasta R$ 1,16 milhão em apenas três shows

Secretaria Municipal de Saúde alega dificuldades orçamentárias e falta de lei para interromper atendimento oferecido desde 2022. Valor das apresentações de Israel & Rodolffo, Panda e Traia Véia equivale a mais de oito anos do serviço, considerando uma sessão semanal para cada paciente.

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Administração de Castilho prioriza grandes festas com shows e suspende atendimeto a autistas. Crédito - Reprodução

A Prefeitura de Castilho, município que se destaca na região pelos gastos com festas e eventos, decidiu suspender o atendimento de equoterapia oferecido a 23 pacientes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A decisão da Secretaria Municipal de Saúde passou a valer em 1º de novembro e foi justificada por dificuldades orçamentárias e pela inexistência de uma lei municipal que regulamentasse o serviço.

A medida contrasta com os valores destinados pela administração municipal à contratação de atrações musicais. Apenas três shows — Israel & Rodolffo, Panda e Traia Véia — somam R$ 1.163.000,00, conforme os valores informados de contratações realizadas por inexigibilidade de licitação.

Enquanto a Prefeitura destinou R$ 450 mil à apresentação de Israel & Rodolffo, R$ 383 mil ao cantor Panda e R$ 330 mil ao grupo Traia Véia, o custo mensal estimado para manter uma sessão semanal de equoterapia para os 23 pacientes era de R$ 11.960,00.

Considerando esse custo, o valor dos três shows seria suficiente, em uma comparação exclusivamente financeira, para custear aproximadamente oito anos e um mês de equoterapia para os 23 pacientes.

A comparação não significa que os recursos destinados às apresentações artísticas possam ser automaticamente transferidos para a saúde, já que as despesas podem envolver diferentes dotações e fontes orçamentárias. Entretanto, os números colocam em discussão as prioridades da administração municipal diante da suspensão de um atendimento destinado a pessoas autistas.

A interrupção foi confirmada oficialmente pelo Consórcio Intermunicipal do Extremo Noroeste Paulista (CIENSP), em resposta a um pedido de informações encaminhado pelo portal Nossa Cidade em 4 de novembro.

Três mães ouvidas pela reportagem também confirmaram a suspensão e relataram que a equoterapia vinha proporcionando benefícios aos filhos, principalmente na redução da agitação e na melhora do comportamento.

Três shows somam R$ 1.163.000,00

Os valores das contratações artísticas permitem dimensionar a diferença entre os investimentos em eventos e o custo do serviço terapêutico.

Atração ou serviçoValor
Israel & RodolffoR$ 450.000,00
PandaR$ 383.000,00
Traia VéiaR$ 330.000,00
Total dos três showsR$ 1.163.000,00
Equoterapia para 23 pacientes — uma sessão semanalR$ 11.960,00 por mês
Equoterapia para 23 pacientes — duas sessões semanaisR$ 23.920,00 por mês

De acordo com o CIENSP, cada sessão de equoterapia custava R$ 130,00.

Para um paciente que realizasse uma sessão semanal, o valor mensal estimado era de R$ 520,00. Com duas sessões por semana, chegava a R$ 1.040,00.

Assim, caso todos os 23 pacientes realizassem uma sessão semanal, o custo estimado seria de R$ 143.520,00 por ano.

O total gasto com os três shows equivale a aproximadamente 8,1 anos desse atendimento, utilizando a estimativa mensal de quatro sessões por paciente informada pelo consórcio.

Outra comparação chama a atenção: apenas o show de Israel & Rodolffo, contratado por R$ 450 mil, representa o equivalente a aproximadamente três anos e um mês de equoterapia para os 23 pacientes, na mesma frequência.

Os cálculos são estimativas comparativas. O custo efetivo do serviço depende da frequência individual e do número de sessões realizadas.

Suspensão foi solicitada em 26 de outubro

Em resposta ao portal Nossa Cidade, o CIENSP informou que a Secretaria Municipal de Saúde de Castilho encaminhou um e-mail em 26 de outubro de 2026, solicitando a suspensão das ordens de serviço de equoterapia a partir de 1º de novembro.

O consórcio confirmou que o atendimento era utilizado pelo município desde 2022.

Os serviços eram prestados pelos credenciados Fisioterapia Plenamente Ltda. e Thalyson Luan de Morais Fernandes.

O valor do credenciamento era de R$ 130 por sessão, com frequência de uma ou duas vezes por semana, conforme as necessidades de cada paciente.

Com a decisão da Secretaria de Saúde, os 23 pacientes autistas atendidos pelo município perderam o acesso às sessões oferecidas por meio do consórcio.

A interrupção ocorreu após aproximadamente quatro anos de utilização do serviço por Castilho.

Mães relatam benefícios e lamentam interrupção

Três mães de pacientes atendidos pela equoterapia conversaram com a reportagem do portal Nossa Cidade e confirmaram a suspensão.

Todas relataram que os filhos apresentavam benefícios com as sessões, especialmente em relação à redução da agitação.

Segundo elas, a atividade contribuía para o comportamento e a rotina das crianças, tornando-se parte importante do acompanhamento terapêutico.

A preocupação das famílias é que a interrupção comprometa a continuidade dos avanços percebidos durante o tratamento.

Para essas mães, a equoterapia não era apenas uma atividade com cavalos, mas uma intervenção que ajudava os filhos em aspectos do desenvolvimento e do bem-estar.

Os relatos representam a experiência das famílias e não substituem avaliações clínicas individuais, mas demonstram a importância que o serviço havia adquirido na rotina dos pacientes.

Qual é a importância da equoterapia para pessoas autistas?

A equoterapia é uma intervenção terapêutica que utiliza o cavalo como parte de uma abordagem interdisciplinar, envolvendo profissionais habilitados das áreas de saúde e educação.

O movimento do animal oferece estímulos motores, sensoriais e posturais que podem contribuir para o desenvolvimento de determinadas habilidades.

Para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, a equoterapia pode proporcionar benefícios em diferentes aspectos, dependendo das necessidades e características de cada paciente.

Entre os possíveis resultados estão:

Equilíbrio e coordenação motora: o movimento do cavalo estimula ajustes posturais e o controle corporal.

Organização sensorial: a atividade oferece diferentes estímulos táteis, vestibulares e proprioceptivos.

Atenção e concentração: as tarefas realizadas durante as sessões podem favorecer a participação em atividades orientadas.

Interação social: o contato com o animal e com os profissionais pode estimular a comunicação e a convivência.

Regulação emocional: algumas crianças apresentam melhora na disposição e na tranquilidade durante ou após as atividades.

Autonomia e confiança: a participação nas sessões pode favorecer a realização de tarefas e o desenvolvimento de habilidades.

A equoterapia é reconhecida no Brasil pela Lei Federal nº 13.830/2019, que regulamenta sua prática como método de reabilitação de pessoas com deficiência.

É importante destacar que a equoterapia não cura o autismo e não substitui outras intervenções terapêuticas. Trata-se de um recurso complementar, cujos resultados variam de paciente para paciente. As evidências científicas apontam benefícios potenciais, mas ainda apresentam limitações, especialmente quanto aos efeitos de longo prazo.

Prefeitura alega dificuldades financeiras e falta de lei

Segundo o CIENSP, a Secretaria Municipal de Saúde de Castilho apresentou duas justificativas para a suspensão dos atendimentos: o cenário orçamentário e a inexistência de lei municipal que regulamentasse a oferta do serviço.

A explicação levanta questionamentos porque a própria administração municipal utilizava a equoterapia por meio do consórcio desde 2022.

Se havia necessidade de regulamentação específica, por que a situação não foi resolvida durante os quatro anos em que os atendimentos foram oferecidos?

Outra questão é se a Prefeitura avaliou alternativas administrativas ou legais para evitar a interrupção do serviço enquanto buscava uma solução definitiva.

A legislação federal reconhece e regulamenta a prática da equoterapia, mas isso não significa, automaticamente, obrigação de custeio municipal em todas as situações. A oferta pública deve observar as normas aplicáveis e os critérios administrativos e assistenciais.

Ainda assim, a interrupção de um serviço disponibilizado durante anos exige esclarecimentos sobre os motivos, os procedimentos adotados e as alternativas oferecidas aos pacientes.

Andradina e Monte Castelo continuam com o serviço

Enquanto Castilho suspendeu os atendimentos, outros dois municípios continuam utilizando a equoterapia por meio do CIENSP.

Segundo o consórcio, Andradina e Monte Castelo mantêm o serviço, com um total de 30 pacientes atendidos.

Isso demonstra que a estrutura de credenciamento permanece disponível para os municípios participantes, embora a utilização dependa das decisões administrativas de cada Prefeitura.

No caso de Castilho, a suspensão foi determinada pela própria Secretaria Municipal de Saúde.

Gastos com festas colocam prioridades em debate

A realização de eventos e a contratação de artistas são atividades permitidas à administração pública, desde que respeitadas as exigências legais e demonstrado o interesse público.

A inexigibilidade de licitação também é prevista na legislação para determinadas contratações artísticas, quando atendidos os requisitos legais.

O questionamento, portanto, não é sobre a legalidade da realização de shows, mas sobre as prioridades da administração municipal diante da alegação de falta de recursos para manter a equoterapia.

Os R$ 1.163.000,00 destinados às três apresentações musicais equivalem a aproximadamente 97 meses de atendimento para os 23 pacientes autistas, considerando uma sessão semanal para cada um.

São mais de oito anos de sessões, tomando como referência os valores informados oficialmente pelo CIENSP.

Mesmo no cenário de duas sessões semanais para todos os pacientes, o valor dos três shows corresponderia a aproximadamente quatro anos de atendimento.

A comparação não comprova que os recursos dos eventos estivessem disponíveis para a saúde, mas evidencia a dimensão financeira do serviço suspenso diante de outras despesas assumidas pelo município.

Famílias ficam sem previsão de retomada

As informações encaminhadas pelo CIENSP não apresentam previsão para o restabelecimento da equoterapia em Castilho.

Também não esclarecem se a Prefeitura pretende substituir o atendimento por outra modalidade terapêutica ou adotar medidas para assegurar a continuidade do acompanhamento dos pacientes.

Entre os questionamentos que permanecem estão o custo efetivo do serviço, a extensão das dificuldades orçamentárias alegadas, a ausência de regulamentação municipal durante os anos anteriores e a possibilidade de retomada.

Para as famílias, a preocupação é imediata: os filhos deixaram de participar de sessões que, segundo os relatos das mães, vinham trazendo benefícios ao desenvolvimento e ao comportamento.

Em um município que destina R$ 1,16 milhão a apenas três shows, a suspensão de um atendimento estimado em R$ 11.960 mensais para 23 pacientes autistas coloca as prioridades da administração municipal no centro do debate.

O portal Nossa Cidade mantém espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Castilho sobre os motivos da suspensão, os gastos com eventos e a possibilidade de retomada do serviço.

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