Aos 18 anos, Eduardo Moura dos Santos já conquistou uma oportunidade que seu pai precisou adiar por mais de duas décadas: estudar engenharia elétrica. Morador de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, o jovem ingressou neste ano na Universidade de São Paulo (USP), depois de conquistar uma vaga na primeira chamada do Provão Paulista Seriado.
Ex-aluno da Escola Estadual Professor Antônio Ruy Cardoso, Eduardo concluiu o Ensino Médio integrado ao curso técnico de administração e se tornou o primeiro integrante da família a ingressar na USP.
A conquista tem um significado especial. Seu pai, Marcelo Moura dos Santos, de 49 anos, técnico em alarmes de incêndio, também sonhava em ser engenheiro elétrico, mas precisou adiar os estudos para trabalhar e sustentar a família.
Agora, pai e filho seguem caminhos diferentes para realizar o mesmo sonho: Eduardo cursa a universidade pública, enquanto Marcelo busca concluir a graduação em uma instituição particular, na modalidade a distância.
“É gratificante. É bem improvável passar na USP, é como se fosse um mito, um curso muito concorrido. Isso vai mudar a realidade da minha família. Eu quero ter um futuro próspero e o meu sonho é trabalhar na Google, com servidores e data centers”, afirma Eduardo.
Pai adiou faculdade para sustentar a família

A história de Marcelo é marcada pelas dificuldades enfrentadas por muitos brasileiros que precisam escolher entre trabalhar e estudar.
Há cerca de 30 anos, quando concluiu o Ensino Médio, ele pretendia cursar engenharia elétrica. Entretanto, a concorrência nas universidades públicas e os custos das instituições particulares tornaram o objetivo distante.
Com a chegada dos filhos e as responsabilidades familiares, o sonho precisou esperar.
Marcelo também passou a acompanhar a rotina médica do filho Guilherme, diagnosticado com autismo na infância.
“Na época, os valores de uma faculdade privada eram muito além do que eu podia pagar. Estudei por conta própria, mas a fase adulta chegou e não havia condições de fazer curso integral porque eu precisava trabalhar”, conta.
Em 2007, quando Eduardo nasceu, a faculdade mais próxima ficava a duas horas de casa.
“Eu não queria sacrificar a minha família”, lembra.
Recentemente, Marcelo conseguiu ingressar em um curso superior a distância, conciliando a formação com o emprego.
“O formato EAD salvou o meu emprego. Hoje eu auxilio no setor da empresa e a expectativa é me tornar o engenheiro da firma”, relata.
Eduardo acorda às 4h20 para estudar na USP

A aprovação na universidade trouxe novas responsabilidades para Eduardo.
Todos os dias, ele acorda às 4h20 e enfrenta um deslocamento de aproximadamente duas horas e meia até o campus da USP, no Butantã, na capital paulista.
Pai e filho saem de casa juntos: Marcelo segue para o trabalho, enquanto Eduardo vai para a universidade.
Apesar da rotina cansativa, o estudante acredita que o esforço será recompensado pelas oportunidades profissionais.
O jovem também se tornou uma referência para o irmão Guilherme, que cursa o Ensino Médio Técnico e já demonstra interesse em ingressar no ensino superior.
“Meu irmão já percebeu que ele pode entrar na faculdade, que é um caminho possível para a vida dele. Acho que sou uma inspiração pra ele, que tem autismo nível 1. Ele vai muito bem na escola, também está no curso técnico e já diz que vai querer fazer faculdade”, afirma Eduardo.
Bolsa de estágio ajudou jovem a guardar dinheiro
Antes da aprovação na USP, Eduardo já buscava alternativas para financiar os estudos.
Durante a segunda série do Ensino Médio, passou a frequentar o curso técnico de administração oferecido pela escola estadual.
Por meio do programa Bolsa Estágio Ensino Médio (BEEM), da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, conseguiu uma oportunidade de estágio em uma empresa parceira.
Durante seis meses, trabalhou como auxiliar de administração e vendas, das 8h às 12h, recebendo uma bolsa mensal de R$ 700.
Em vez de gastar o dinheiro, decidiu guardar e investir os valores.
O plano inicial era tentar uma bolsa de estudos em uma universidade particular, como a Universidade Presbiteriana Mackenzie.
“Eu juntava a bolsa e decidi investir. Não gastei porque achei que ia fazer Mackenzie, mas veio a notícia da aprovação na USP e hoje o dinheiro continua rendendo”, conta.
A vaga na universidade pública eliminou a necessidade de pagar mensalidades.
Ao término do estágio, Eduardo chegou a receber um convite para ser efetivado na empresa, mas precisou recusar a oportunidade porque o horário de trabalho era incompatível com a graduação em período integral.
“Mudaram a trajetória da minha vida e da minha família”
Para Eduardo, a combinação entre ensino técnico, estágio remunerado e acesso à universidade pública foi decisiva.
“Eu me dediquei muito aos estudos durante o Ensino Médio e posso dizer que os dois programas da Educação, o BEEM e o Provão Paulista, mudaram a trajetória da minha vida e da minha família”, afirma.
O jovem já faz planos para o futuro.
“Um dia vou comprar uma casa nova, um carro novo pro meu pai. Desejo ter um futuro próspero e um professor meu sempre diz que estar na USP é um primeiro passo para isso. Estou na melhor universidade que poderia estar”, comemora.
A mãe, Roseli Moura dos Santos, acompanha com orgulho a trajetória do filho.
“Sempre falo para o Eduardo estudar bastante e se dedicar, porque o futuro é construído pelas escolhas e ações diárias. Eu espero para ele um excelente emprego e que ele conquiste os sonhos planejados”, afirma.
Provão Paulista oferece 15,8 mil vagas em universidades públicas
O Provão Paulista Seriado é uma iniciativa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo que avalia o desempenho dos estudantes ao longo dos três anos do Ensino Médio.
O programa permite que alunos da rede pública concorram a vagas em instituições públicas de ensino superior, utilizando o desempenho obtido nas avaliações.
Desde sua criação, o sistema disponibilizou mais de 60 mil vagas.
Na seleção atual, aproximadamente 380 mil concluintes do Ensino Médio da rede pública participaram das provas realizadas nesta semana.
Ao todo, são oferecidas 15,8 mil vagas, distribuídas entre cinco instituições:
Universidade de São Paulo (USP);
Universidade Estadual Paulista (Unesp);
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp);
Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatecs);
Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp).
Para engenharia elétrica no campus da USP Butantã, curso escolhido por Eduardo, a seleção de 2026 contou com 16 vagas.
Programa de estágio já beneficiou mais de 21 mil estudantes
Outro programa que contribuiu para a trajetória de Eduardo foi o Bolsa Estágio Ensino Médio (BEEM).
A iniciativa oferece oportunidades de experiência profissional para alunos matriculados em cursos técnicos da rede estadual.
As bolsas podem chegar a R$ 883,66, dependendo das condições do programa.
Segundo a Secretaria da Educação, o BEEM já registrou a contratação de 21,7 mil estagiários, e as inscrições permanecem abertas.
Para a família Moura dos Santos, os programas representam mais do que números.
Enquanto Marcelo busca concluir a formação que precisou adiar durante boa parte da vida, Eduardo já frequenta uma das principais universidades públicas do país e planeja uma carreira na área de tecnologia.
A conquista do jovem mostra como o acesso à educação pode transformar não apenas o futuro de um estudante, mas também as perspectivas de toda uma família.





