A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público intensificaram o combate à agiotagem e aos crimes associados à cobrança ilegal de dívidas. Nesta sexta-feira (6), uma operação integrada em Campinas identificou 62 vítimas, mais de 50 imóveis envolvidos em negociações suspeitas e 18 casos de perda de propriedades. Até a divulgação do balanço inicial, sete pessoas haviam sido presas.
A ofensiva, denominada Operação Shylock, investiga uma organização criminosa suspeita de atuar com agiotagem, extorsão, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
O avanço das investigações ocorre em um cenário no qual a repressão à agiotagem também ganhou destaque na região de Araçatuba. Em operações anteriores, a Polícia Civil realizou prisões de pessoas suspeitas de envolvimento com empréstimos ilegais e cobranças violentas.
Em um dos episódios investigados na região, dois suspeitos foram presos em Bataguassu, no Mato Grosso do Sul, por possível participação em agressões contra uma mulher que teria contraído dívida com agiotas.
Embora as ações revelem a atenção das autoridades a esse tipo de crime, não há informação de que os casos da região de Araçatuba tenham ligação com a organização investigada em Campinas.
Justiça determina 11 prisões e bloqueio milionário
A Operação Shylock é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Campinas, do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com as polícias Civil e Militar.
Foram expedidos 11 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão, além de decisões judiciais para bloqueio de R$ 4,68 milhões, sequestro de imóveis vinculados ao esquema e afastamento cautelar de função pública.
Até a manhã desta sexta-feira, sete pessoas haviam sido presas.
A operação conta com equipes do Núcleo Especializado de Combate à Criminalidade Organizada e à Lavagem de Dinheiro (Neccold), do Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter 2), além do 1º e do 10º Batalhões de Ações Especiais de Polícia (Baep).
As buscas se concentram em endereços residenciais e empresariais de Campinas, especialmente nos bairros Cambuí, Jardim Chapadão, Parque Prado, Nova Campinas, Nova Europa, Taquaral, Vila dos Plátanos, Vila Lemos e Vila São Bernardo.
Vítimas perdiam imóveis após contrair empréstimos
Segundo as investigações, a organização oferecia empréstimos particulares mediante a apresentação de imóveis como garantia.
Posteriormente, os suspeitos utilizariam fraudes contratuais e deixariam de reconhecer valores já pagos pelas vítimas, criando condições para executar as garantias e se apropriar dos bens.
A investigação identificou mais de 50 imóveis envolvidos e 18 situações em que vítimas perderam suas propriedades.
A suspeita é de que o grupo utilizasse mecanismos aparentemente formais de contratação para encobrir práticas criminosas.
O esquema também envolveria empresas de fachada, pessoas interpostas e transferências patrimoniais destinadas a dificultar a identificação dos verdadeiros beneficiários dos recursos.
Organização tinha divisão de tarefas
As apurações apontam que a estrutura investigada funcionava com divisão de responsabilidades.
Havia pessoas encarregadas de captar interessados nos empréstimos, negociar valores, formalizar contratos, administrar recursos e realizar cobranças.
Outros integrantes seriam responsáveis por movimentações financeiras e operações patrimoniais destinadas a ocultar a origem e o destino do dinheiro.
Para os investigadores, a estrutura organizada indica que não se tratava apenas de empréstimos isolados, mas de uma atuação coordenada, com suspeitas de diferentes crimes.
O delegado Oswaldo Diez Júnior, diretor do Deinter 2, destacou a importância da integração entre as instituições.
“É uma atuação integrada entre as forças de segurança para aprofundar as investigações e cumprir as medidas determinadas pela Justiça. As ações também buscam proteger possíveis vítimas e evitar que os investigados ocultem ou transfiram bens adquiridos com recursos provenientes dos crimes”, afirmou.
Investigação busca identificar destino do dinheiro
Além de cumprir as ordens de prisão e busca, a operação realizada em Campinas pretende rastrear os valores movimentados pelo grupo e identificar os beneficiários finais das operações financeiras.
O bloqueio de R$ 4,68 milhões e o sequestro de imóveis buscam impedir a ocultação ou transferência de patrimônio que possa estar relacionado aos crimes investigados.
As medidas também podem contribuir para a preservação de bens durante o andamento dos processos e eventual reparação de prejuízos, conforme decisões judiciais.
A investigação continua para identificar a extensão das atividades do grupo e possíveis outras vítimas.
A Operação Shylock reforça a ofensiva das forças de segurança contra esquemas de empréstimos ilegais que, segundo as investigações, podem transformar dívidas em perda de patrimônio, ameaças e violência.
Região de Araçatuba também registra ações contra agiotas
O combate à agiotagem não está restrito a Campinas.
Na região de Araçatuba, a Polícia Civil também realizou operações contra suspeitos de empréstimos ilegais e métodos violentos de cobrança.
Entre os episódios investigados está o caso de uma mulher que teria sido agredida em razão de uma dívida com agiotas. As apurações levaram à prisão de dois suspeitos em Bataguassu, município de Mato Grosso do Sul.
O episódio chama a atenção para uma das faces mais graves desse tipo de atividade: quando a cobrança de dívidas passa a envolver ameaças, intimidação e violência física.
Os casos investigados pelas autoridades mostram que a agiotagem pode estar associada a outros delitos, como extorsão, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro.





