Sexta-feira, 6 de novembro de 2026
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Magia verdadeira

VINHETA

Nunca duvidei do mágico, do inexplicável. Por outro lado, não sou exatamente uma pessoa mística. Estou mais para uma pessoa “mixtica”, uma mistura de crenças, muitas dúvidas e uma boa dose de vaique. Se não faz mal a ninguém (gente e bicho), não é imoral e nem engorda (muito), eu não me recuso e nem rejeito. Foi assim que simpatias de meus avós curaram meus recorrentes terçóis e uma verruga que insistia em habitar um dos meus dedos do pé. Interessados, entrar em contato.

Se é preciso acender uma vela, um incenso, colocar sal pela casa, rezar uma novena ou colocar um altar aos antepassados, eu tô dentro, sem preconceitos. Tenho ressalvas sérias quanto a algumas práticas, porém, em tempos de radicais fiscais da opinião alheia e de cancelamentos, deixo isso para minhas elocubrações e convicções pessoais.

Amante da fantasia, particularmente eu adoraria viver em um mundo no qual existissem criaturas mágicas como fadas, duendes, gnomos, dragões (só dos bonzinhos) e outras criaturas míticas, mas a esse ponto não chego, reservando-lhes o mundo da ficção e da imaginação, embora, quando criança, conheci uma benzedeira que me garantiu já ter visto um lobisomem, o que me resultou em muitas noites sem dormir, tremendo de medo.

Aqui perto de minha casa há vários entroncamentos de ruas, muitos dos quais resultam em encruzilhadas. Não sou uma entendedora do assunto, mas aparentemente este é um tipo de lugar utilizado para oferendas. Não é raro, assim, encontrar os chamados alguidares ou oberós, vasilhas de barro, posicionadas em esquinas ou em áreas verdes, repletos de frutas, flores, com bebidas e cigarros ao lado.

Lembro-me de quando nos mudamos para São Paulo, em outro bairro, no qual também havia um espaço parecido, uma pequena praça. Todos os dias levávamos nossos cachorros até lá, deixando-os soltos para pequenas expedições e corridas, sob nossa supervisão. Quase morri do coração quando Peteco, um Dachshund caramelo, chegou, feliz da vida, arrastando uma gigantesca cabeça de porco.

Foi essa a imagem que me veio à mente quando Gigi, uma shih-tzu que vive faminta e não porque lhe falta comida, quase se atracou com um peixe morto, também deixado em uma esquina. Ao lado do peixe jazia uma imensa abóbora, repleta de alguma coisa que não sei explicar. Sem que ninguém ousasse mexer ali, peixe e abóbora foram sendo devorados, por dias, pelas moscas e pelas pombas, nesta ordem, enquanto exalavam um fedor absurdo.

Semanas se passaram e, passeando pelo mesmo lugar, notei que uma magia incrível tinha se concretizado. Uma das sementes da falecida abóbora havia germinado, aos pés de uma árvore, já ensaiando se estender pelo chão. Eu reconheci porque houve um tempo, já distante, no qual eu tinha um espaço verde para plantar, mesma razão pela qual reconheço as frutíferas e outras plantas que nascem espontaneamente pelas ruas e pelas frestas de concreto dessa cidade gigantesca.

  Fiquei ali por um tempo, admirada, uma vez mais, pela força da natureza, a sua capacidade de ressurgir, de produzir vida, mesmo diante da devastação causada pela humanidade. Lamento a certeza que tenho de que logo pisarão no pequeno pé de abóbora, sem sequer se importarem ou se darem conta. Pensei em arrancá-lo de lá e tentar trazê-lo para casa, mas conclui que morreria também, após o transplante.

Muitas vezes coloquei sementes de melancia, melão e abóbora para germinar nos vasos que mantenho, sem sucesso. Concluo que tudo tem seu dia, seu lugar, sua sina. Talvez seja parte daquela oferta, talvez um sinal de que foi aceita. Todo quanto sei é que magia existe, transformando morte em vida, em renascimento. Basta procurar nos detalhes.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e crê na magia da natureza – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br/ no YouTube: @canalaprimeiravitima

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