Zebaldo nasceu com o nome já pronto. Aliás, o nome nasceu antes dele. E não foi por amor: foi por chantagem.
O tio, Zebedeu, dizia-se nas últimas — e dizia isso havia onze anos. Exigia ser padrinho do filho que a irmã esperava. Prometeu deixar ao rebento tudo o que tinha, por testamento, com a mão no peito e a outra no bolso, desde que pudesse lhe dar o nome.
Na época, um programa fazia grande sucesso e trazia uma ave antropomórfica — talvez um frango, gigante e amarelo, chamado Garibaldo. O padrinho, fã de Vila Sésamo, juntou o próprio nome ao do frangão, com a delicadeza de quem mistura café com leite azedo, e saiu Zebaldo.
— É só um nome, mulher! — argumentou o pai interesseiro, cunhado de Zebedeu. — O menino nem vai notar.
Quem não notou foi Zebedeu, que enfim morrera quando o afilhado tinha dois anos. Mas o menino notou. Pela vida inteira.
— Zebú! Corre, Zebú! — gritava o amigo no recreio.
— Não sou boi, seu…
— Balde! — chamava a inspetora. — Balde, para dentro da sala!
— Balde é o fim da picada! — resmungava ele.
— Zééééé-Baldo, traz uma cerveja! — pedia o companheiro de boteco.
— Garibaldo! — chamava a vizinha, que tinha a mesma idade dele e só falava de Vila Sésamo.
Zebaldo sofreu bullying a vida inteira — quando a palavra ainda nem existia no vocabulário.
No aniversário de seis anos, a mãe fez uma festa temática "Vila Sésamo" e fantasiou o moleque de frangão amarelo. O menino só parou de chorar aos berros quando viu o Autorama de presente.
— Tudo culpa do padrinho bendito!
— Por que não me chamou de João? — perguntou à mãe, aos oito anos.
— Porque João não tinha Fusca — respondeu ela, sem levantar os olhos do bordado.
O padrinho morreu sem deixar a fortuna que os pais imaginavam que tivesse. Deixou um Fusca verde-abacate, inteiraço, 1965, que só atrapalhava na garagem. Ofereciam mixaria por ele. Por mixaria, também não.
Um dia, cansado de tanto apelido, já aos cinquenta anos, anunciou o Fusca.
— Quanto? — perguntou o sujeito.
— Ah, sei lá… R$ 150 mil? — disse, pedindo um preço astronômico.
— R$ 150 mil? Levo!
Era uma fábula. Deu para contratar advogado. Com a sobra, comprou uma Variant cor abóbora, 1972. Uma relíquia.
Três meses depois, o advogado — terno torto, gravata-borboleta que não combinava com nada, camisa de grandes bolinhas — entregou-lhe a nova certidão de nascimento, solenemente, como quem entrega um troféu.
— Parabéns! Aqui está o seu passaporte para a felicidade, Seu... Zebedeu!
Ele olhou o papel. Olhou de novo. E riu — daquele riso que só quem esperou a vida toda por alguma coisa consegue soltar.
— Sabe...? — disse ao advogado. — Nunca entendi por que ele, que dizia gostar tanto de mim, não me deu... o próprio nome.
— Mas agora o senhor se deu…! — observou o advogado, fingindo estar emocionado, para dar uma força ao cliente.
— Eu me dei. É homenagem. Sempre quis me chamar... Zebedeu…!!!
O advogado sorriu:
— É… quem entende? — pensando como alguém ia querer um nome tão feio.
Ninguém. Mas, pela primeira vez em cinquenta anos, Zebedeu assinou o próprio nome sem sentir vergonha — e descobriu que o nome que a gente escolhe pesa menos que o nome que a gente aceita.
Jorge Kuranaka é Procurador do Estado e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras





