Sexta-feira, 23 de outubro de 2026
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Refúgios

Vinheta

Sendo muito franca com o leitor, não gosto de períodos eleitorais. O debate civilizado até me é agradável e sempre busco considerar as divergências como algo saudável, resultado da democracia. Aceitá-las e compreender que nosso ponto de vista é sempre a vista de um ponto e que podemos estar errados é um desafio que se impõe, um exercício de ética nem sempre fácil de praticar. As agressões, os radicalismos, as mentiras e as brigas que envolvem esses eventos, porém, demonstram o pior das pessoas e, para não fazer parte disso, muitas vezes me omito, segurando na garganta a vontade de também manifestar opiniões que podem desagradar.

Para ser capaz de sobreviver às eleições e a tantas outras coisas que não seguem o script que traçamos ou almejamos para nossas vidas, é preciso encontrar rotas de fuga, refúgios seguros, oásis nos quais guardamos nossa sanidade, nossa respiração regular, nossa paz de espírito. Encontrar esses abrigos é sobreviver, assumindo o controle daquilo que nos é permitido, embora às vezes negligenciado. Cultivo vários desses lugares, como rotas alternativas para as quais me dirijo quando quero transgredir minha própria existência e, com absoluta certeza, os livros são minhas salvaguardas preferidas.

Tenho verdadeira obsessão por livros e gosto de comprá-los (ou de ganhá-los) tanto quanto gosto de lê-los. Minha casa tem livros por todos os cantos, a propósito. Há livros que deixo no banheiro, para leituras em momentos oportunos. Tenho livros no braço do sofá da sala, para me socorrer deles quando a programação deixa de me interessar, embora não seja raro que eu faça as duas coisas ao mesmo tempo. Um olho no gato e outro no peixe, como se diz no vulgo. Carrego, em geral, um livro na minha bolsa, para entediantes eventuais esperas, como aguardar em consultórios. Se a bolsa é pequena demais, lá estão meus aplicativos no celular, sempre repletos de muitos livros.

Sobre livros digitais, ainda que não sejam meus favoritos, não os dispenso, principalmente quando viajo com volume controlado de bagagem. Acredito que meu Kindle já tenha algumas centenas de livros, muitos deles devidamente lidos durante viagens longas ou noites de insônia, com a vantagem da luz própria que não incomoda (quase) ninguém. Atualmente, uso ainda um aplicativo de audiolivros e os ouço enquanto me ocupo de atividades diárias, como lavar a louça ou tomar banho. Na cabeceira da cama, ao lado do dispositivo de leitura, ficam também vários livros, alguns parcialmente lidos, enquanto outros esperam seus momentos.  Isso tudo sem falar nas minhas muitas estantes, nos livros que estão no escritório e nas dezenas que estão emprestados para amigos e familiares.

Ler é um prazer do qual não abro mão e que me proporciona experienciar emoções diferentes, viver em outros lugares do mundo, em outros planetas, em outras mentes, tudo isso com o simples virar de páginas. É um encantamento que me arrebata e que me salva, todos os dias, dos outros e de mim mesma. Nesses dias de tantas acusações mútuas, de discussões intermináveis, de escândalos descortinados por minuto, de mentiras e verdades, preciso reservar momentos para observar pessoas que se amam, para chorar com emoções que transbordam em cada linha, para rir com piadas boas e inteligentes, para viajar pelas galáxias, para conhecer cidadezinhas perdidas e mágicas, para pisar em gigantes e desvendar crimes insolúveis. Por isso leio vários livros ao mesmo tempo, mergulhando naquele que me estende os braços a cada momento, desvendando meus segredos e aflições.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e acredita na magia dos livros – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br/@cinthyanvs e no YouTube: @canalaprimeiravitima

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