Nas últimas temporadas do debate público brasileiro, testemunhamos o nascimento de uma nova e perigosa era política: a era do cinismo institucionalizado e da espetacularização do caos. Através de uma série de ensaios e crônicas políticas produzidos recentemente que vão desde a sátira ao desmonte estatal até a análise da falência moral das nossas lideranças, busquei mapear os vetores de uma tragédia anunciada. O diagnóstico é claro, incômodo e, acima de tudo, preventivo.
O ecossistema político nacional transformou-se em um cenário onde as grandes bandeiras históricas foram esvaziadas de sentido. Sob o artigo do slogan "Deus, Pátria, Família e o Puteiro", o que se viu foi a mercantilização dos valores conservadores, transformados em mera moeda de troca eleitoral.
Enquanto o topo da pirâmide se blinda em um falso discurso antissistêmico ironizado em outro artigo: "Sacrifício da família Bolsonaro em destruir o sistema por dentro (sem deixar vagas)", as bases do país são corroídas por um anti-intelectualismo orgulhoso. Vivemos, literalmente, o dia em que a ignorância tirou selfie.
Esse desmonte não foi apenas retórico; ele foi prático e material. Abordei o "milagre da motosserra tupiniquim", onde a destruição patrimonial e ambiental é vendida como progresso. No campo institucional, testemunhamos o momento exato quando os freios viram aceleradores, e os órgãos que deveriam fiscalizar e conter os abusos de poder passam a acelerar a degradação jurídica do país. Na ponta mais frágil da corda, a realidade da população é maquiada por uma cruel propaganda estética: a oferta de uma "dipirona de grife e lençóis egípcios nas UPAs", metáfora perfeita para a miséria real disfarçada de eficiência de marketing.
Diante desse inventário da decadência, cabe uma cobrança severa sobre o futuro do Brasil e a responsabilidade da direita. O campo conservador não pode se omitir, validar o ridículo ou flertar com o populismo messiânico sem esperar que a conta chegue. Afinal, após tanta terra arrasada, a pergunta inevitável que ecoa é: o que restou?
Escrever e documentar esses processos não é um exercício de mero pessimismo, mas um ato de registro histórico. Os perigos estruturais e conjunturais da nossa política foram formalmente catalogados, dissecados e advertidos. Se o Brasil caminhar a passos largos para um futuro tenebroso, marcado pelo colapso social, econômico e moral, a história provará que houve ampla previsibilidade.
Quando o preço dessa negligência coletiva for cobrado, nenhum ator político, cidadão ou omisso poderá vir a público para gaguejar desculpas. Ninguém poderá alegar surpresa. O aviso foi dado, o registro está feito e a ignorância não servirá de álibi.
ALMIR FERNANDES LIMA
Advogado






